A casa-atelier de Lourdes Castro e a falta de visão política e cultural
Na foto, de João Mauricio Marques, vemos Lourdes Castro e Lee Ranaldo, músico americano dos Sonic Youth, em 2011, quando. chegado à ilha, fez questão de ir visitar uma das suas artistas preferidas, a sua casa.
Os herdeiros de Lourdes Castro puseram à venda a casa-atelier que a artista construiu, ao longo da vida, com o marido, o arquiteto Manuel Zimbro, no Caniço, Madeira.
A artista desejava que a casa, que encarava como fazendo parte da sua obra, e o magnífico jardim, fossem preservados, para que ali pudesse haver uma fundação pública, que permitisse o estudo da sua obra e a do marido, e, simultaneamente, desenvolver outras atividades, como residências artísticas.
Em alguns círculos, nacionais e internacionais, a casa, a personalidade, a sua atitude perante a vida e o ambiente que a casa expõe, tornou-se tanto motivo de interesse e curiosidade como a sua obra propriamente dita.
A noticia surge meses depois da Assembleia Legislativa da Madeira chumbar a proposta de classificar o espaço como imóvel de interesse público.
A notícia, apesar das justas indignações que se irão seguir - e até de previsiveis volte-face, não iludem que o que esta a acontecer não é propriamente inesperado. Há muito que era percetível que não se sabia valorizar a vida e obra de Castro na relação com a ilha. O caso de Castro é talvez mais significativo porque falamos de uma das mais relevantes artistas portuguesas do século XX, com ressonância internacional, e uma obra com grande poder de sedução sem prescindir do rigor, qualidade e singularidade.
É endémica em Portugal a dificuldade em valorizar e comunicar os seus artistas, o património e criar “narrativas culturais” significativas. Não se trata de “inventar”, mas de valorizar e saber comunicar o muito que existe com qualidade e particularidade. O caso de Castro, agora exposto, é apenas um entre outros.
As sombras, os recortes, os herbários, a atenção ao ínfimo: tudo na sua obra é uma pedagogia da luz e da presença. Não se pode dizer que a Madeira está representada na sua obra de forma direta. Mas está pensada. A ilha é ali uma forma de consciência, gramática sensível que articula corpo, vegetacão, silêncio, ausência.
E, no entanto, essa consciência não encontrou eco na terra que a gerou. A Madeira não soube reconhecer na sua obra a possibilidade de se descrever. Uma oportunidade perdida.
O desinteresse político não é apenas falha administrativa; é sintoma de uma incapacidade mais funda de compreender a cultura como infraestrutura simbólica. Numa ilha dependente da monocultura turística, a diversificação através da cultura não é luxo — é estratégia de sobrevivência. Lourdes de Castro oferecia à Madeira uma narrativa singular, uma forma de se distinguir no mapa cultural europeu.
Mas para isso seria preciso visão, politica, cultural e económica: perceber que uma artista que trabalhou a sombra como pensamento oferece à ilha uma identidade que não é decorativa, mas estrutural. A casa que criou — espaço de vida, de trabalho, de imaginação — poderia ser um centro de interpretação da sombra, um lugar de peregrinação estética, um laboratório de luz e memória. Poderia inscrever a Madeira numa cartografia cultural que ultrapassa o turismo de superfície.
Em vez disso, está à venda, desprotegida, entregue ao acaso do mercado.
O abandono da casa é a metáfora perfeita daquilo que acontece quando um país não reconhece o valor simbólico dos seus criadores: a casa do pensamento torna-se ruína, e a memória fica à mercê da especulação.
Falta-nos a capacidade de produzir narrativas culturais com significado, de ligar obra, território e comunidade. Celebramos artistas quando morrem, mas raramente lhes damos lugar enquanto vivos. E quando lhes damos lugar, é de modo episódico, sem projeto, sem continuidade.
Lourdes de Castro trabalhou toda a vida sobre a relação entre presença e ausência. Ironia amarga: o país que ela pensou através da sombra insiste em tratá-la como ausência mesmo quando está presente.
O abandono da casa não é apenas um problema patrimonial. É a perda de uma oportunidade de a Madeira se pensar a si própria através de uma das suas artistas maiores. É a incapacidade de transformar um legado artístico num lugar de encontro entre visitantes, habitantes e história. É a falha em reconhecer que a cultura não é ornamento, mas forma de vida.
“O meu jardim é a minha tela”, dizia Castro. Como pode uma ilha que vive da sua imagem não cuidar de uma das artistas que melhor a soube imaginar?