Björk e a descoberta da intimidade como lugar de revolução

Os primeiros discos de determinado artista são, por norma, tratados como sendo os melhores pelos conhecedores do fenómeno da música. Durante muito tempo não fui imune à tentação . É natural. Fixam identidade e inauguram território. No caso de Björk, isso é evidente. “Debut”  é manifesto. “Post”, imaginação urbana. “Homogenic”,  síntese épica. Tornaram-se referências porque cristalizaram uma figura que surgia inteira.

 

Mas no caso dela opto pelos álbuns tardios: a Björk dos últimos vinte anos é menos exuberante e mais arquitetónica, mas muito mais inventiva. Menos tentada pela génese de géneros e mais criadora de universos e conceitos. Prefiro-a nesse chão. “Medúlla”, “Biophilia”, “Vulnicura”, “Utopia” ou “Fossora” expandem a identidade em vez de a definir; são discos densos, conceptuais, contínuos. E depois há “Vespertine”, o meu preferido, que completa por estes dias 25 anos. Um disco intimista, microscópico, profundamente influente para muito do que se seguiria. A eletrónica doméstica, os ruídos mínimos, o erotismo contido abriram caminho para estéticas que fomos  reconhecendo  em, por exemplo,  FKA twigs, James Blake, Arca ou Caroline Polachek.

 

É uma obra que expõs que a intimidade podia ser futurista, que o sussurro podia ser arquitetura, que o pequeno podia ser monumental. É o momento em que Björk deixa de querer ser definidora e passa a ser escavadora: em vez de forjar um estilo, cria uma temperatura —digital, quente, interior — que marcou o início dos anos 2000. A genealogia nasce da miniaturização eletrónica de Oval, Opiate, Matmos, Alva Noto e outros; da pureza coral renascentista, da espiritualidade depurada de Arvo Pärt e da cultura digital nascente. Transforma o som dos computadores em emoção e cria uma estética de recolhimento: voz próxima, coros vaporosos, produção de neve e luz branca.

A própria Björk nunca mais regressou à exuberância dos anos 90: os discos seguintes prolongam essa sensibilidade de detalhe e mundo próprio. Vespertine foi o ponto de viragem, o lugar onde a intimidade se tornou revolução.

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