Criolo, Amaro e Dino: Lusotopia

É um álbum de família. Mas não de sangue, ou mesmo de língua, ou de estética. É de escolha, afeto, amizade. Percebe-se que aqueles três estão a criar sem programa de ação, sem guião pré-definido. Pelo menos foi o que pressenti. Às vezes, nesta época onde se procuram significados ocultos para tudo, esquecemo-nos disso, da reinvenção dos vínculos onde o Outro é entendido como extensão de nós próprios.

Pus o disco a tocar, pela primeira vez, ontem à noite. Esqueci-me de questões culturais ou sociopolíticas. Ouvi três autores a ter prazer num encontro tranquilo. Nem me veio à cabeça redes, nexos, África, Brasil, Cabo Verde e Portugal, nem o jazz, o rap, o maracatu, o batuque, o português, crioulo, inglês. Não ouvi fronteiras ou muros.

Não há bagunça. Apenas canções, com o piano e os arranjos do pernambucano Amaro Freitas a serem o eixo invisível que parece sustentar tudo com naturalidade, enquanto o português de ascendência cabo-verdiana Dino d’ Santiago abre as portas do atlantismo com um canto que carrega sotaque, memória e espiritualidade, e o rapper paulistano Criolo entra com fluidez no ritmo e na dinâmica do conjunto.

“Menina do coco de cárite” tem Recife afro-brasileiro e “Seka” batuque cabo-verdiano (ia jurar que por lá se ouve também a voz centenária da batucadeira Nha Balila) e “No vento de nós” é todo ele espiritualidade jazzística, enquanto a fluência vocal de Criolo se sente em “Amazonia”. Mas não apetece discorrer faixa a faixa. O disco não tenta parecer nada em especial. Limita-se a ser. Quando acaba, com a belíssima “Hoje eu vi você”, então, se nos apetecer, pode-se pensar em tudo isto.

A palavra “lusofonia” aparece sempre nestas coisas. Uma seca. Parece até inocente, celebração da língua portuguesa, mas suporta um complexo de tensões históricas, politicas e simbólicas. Não é apenas termo linguístico. Tenta fixar uma ideia de comunidade ambivalente. Portugal, através do prefixo luso, surge como centro simbólico, reabrindo a sombra do colonialismo, mesmo se a vitalidade cultural ou socioeconómica está em todas as latitudes, do Brasil a Angola, ou Cabo Verde.

Os países ditos “lusófonos” têm histórias, culturas, politicas linguísticas e relações com o português, muito distintas. Colocá-los sob o mesmo rótulo cria uma simulação de homogeneidade, ao mesmo tempo que se centraliza a língua portuguesa, marginalizando dezenas de outras línguas nacionais. O Brasil raramente se reconhece na expressão e os países africanos oscilam entre o pragmatismo e o desconforto.

A palavra tenta criar uma família, onde nem todos se sentem representados. Ao longo dos tempos têm sido imaginadas alternativas conceptuais que escapem ao peso colonial e permitam imaginar relações mais horizontais entre países que partilham o português, mas não tem sido fácil. A questão não é apenas semântica, é politica, histórica e imaginativa. Algo que permita deslocar o centro, redistribuir agência, promover relações não hierárquicas, abrindo espaço para uma comunidade pluricontinental da língua portuguesa.

Pensava nisso ao ouvir o álbum. Lá, como cá, a palavra “lusofonia” tem sido omnipresente nas reflexões sobre o disco. E falta algo. Prefiro a palavra “lusotopia”, que não é nova, nem supera insuficiências, mas ao menos multiplica futuros possíveis e desmonta a ideia de uma identidade fixa. E isso é interessante quando se ouve uma obra que nasce da potência da amizade, forma de resistência, criação, ou reconfiguração, com algo de utópico, de novos modos de vida frente aos processos de normalização promovidos pela neoliberalização de todos os recantos da nossa existência.

A amizade é, precisamente, um desses últimos lugares onde ainda parece ser possível criar espaços de liberdade, criação ou de autonomia. Dir-se-ia que Criolo, Amaro e Dino encontram aqui formas mais expansivas de amizade, produzindo novos vínculos, num projeto de convivência, buscando não apenas outras formas de correspondência, mas uma multiplicidade delas. Política não são apenas eleições, disputa ou divisão de poderes. É também a construção de novos modos de vida, alargando o político para o corpo social. Sem esforço, no meio de belas canções, é isso que aqui é alcançado. Essa é a força da amizade. Brindo a isso.

 

 

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