“André Ventura ouve kizomba”
Foto: VB
Passava ao início da noite por uma praça quando, num banco, vi inscrita a frase (destacada na foto): “André Ventura ouve kizomba”, escárnio e denúncia de incoerências de quem se move na ficção política que tenta fixar pessoas, nacionalidades ou músicas, em narrativas artificiais de pureza e imutabilidade, num mundo onde tudo é impuro, híbrido, em diálogo, surgindo a kizomba como símbolo de mistura afro-portuguesa e metáfora do que contagia.
Ventura transforma mistura em ameaça, decadência ou corrupção, mas tudo é mistura. Não é apenas a kizomba. Quando ouve música que hoje é “tradicional”, já foi fusão, como o “tipicamente português” fado, em interlocução com modinhas brasileiras e lundus africanos.
E a comida? Quando mastiga com tomate das américas, especiarias da ásia, ingredientes de África. E a língua? Organismo vivo, de gírias, empréstimos, crioulos e internetês. E as artes, que sempre viveram de citações, apropriações e diálogos invisíveis, o Renascimento italiano inalou no mundo árabe, o modernismo europeu em África, e por aí fora. E nós, eu, ele?
A noção de que existirá uma espécie de população original, homogénea, com fronteiras claras e essência fixa, ignora séculos de migrações, cruzamentos e influências. Constrói uma identidade mítica, muitas vezes racializada, que nunca existiu, nem existirá.
É uma ficção que exclui os que não encaixam no ideal. A tradição deixa de ser algo vivo e é apenas monumento. O passado é romantizado e simplificado. E o presente é lido como perda, não como transformação, vai-e-vem constante entre passado, presente e hipóteses de futuro.
Não há uma cultura autêntica, não contagiada, que rejeita diálogos, torções e adaptações. A cultura não obedece a fronteiras políticas. Move-se como a água, infiltra, atravessa, reaparece noutro lugar. A circulação é força. A pluralidade, riqueza. E não ameaça.
E se a frase fosse com Seguro? Aí a questão já é outra. Em vez de ideológica, estética. É saber se alguém a quem associamos sobriedade e contenção, poderia ser colocado num cenário de corpo solto, ritmo, sensualidade, mestiçagem. Espero bem que sim, que aquela aparente rigidez, seja capaz de libertar uma vida interior inesperada.