Fernando Mamede e as narrativas de saúde mental

Era diferente, externamente, dos outros a correr. Nos anos 80, Fernando Mamede (1951-2026), deslizava nas pistas. Não tinha um estilo esforçado. No futebol, no Benfica, brilhava Nené. Dele dizia-se que “não sujava os calções”. O meu pai dizia isso de Mamede: não sujava a pista, parecia sobrevoá-la. Internamente, sabemos lá, mas para fora era isso que projetava.

Coincidiu temporalmente nas corridas de fundo com Carlos Lopes, peito feito, atlético, pronto para o sacrifício, um lutador. O preferido dos portugueses. Mamede bateu recordes da Europa e do mundo, mas nunca venceu jogos olímpicos ou mundiais. Ficou conhecido como o que falhava nos momentos decisivos. A ansiedade, a pressão competitiva, as expetativas, pareciam traí-lo. Carlos Lopes, por sua vez, nos grandes palcos parecia superar-se.

Lopes tornou-se no modelo do corredor português, resistente, antes quebrar do que torcer, sacrificial. Mamede, à época, era vitoriado quando batia recordes. Mas em surdina era visto como perdedor. Era até gozado. Umas vezes era herói, outras uma figura trágica e desconfortável, porque confrontava o coletivo e os cuidados psicológicos que não fornecia.

A sua morte, anteontem, aos 74 anos, reavivou essas questões. À época, perante a ansiedade e o sofrimento psicológico, isolava-se, não queria ser o “maluquinho”, se falasse de psicólogos, como confessou há anos. Décadas de luta invisível.  As suas dificuldades eram vistas como “enigmas” ou “mistérios” e não como questões de saúde mental. Um desafio recorrente quando o tema era tabu no desporto, mas também depois quando se retirou.

Aí a narrativa tornou-se difusa: lembrava-se o recordista, mas evitava-se discutir o seu mal-estar. Era visto como alguém que “não lidou com a pressão”, sendo apenas a partir de 2010 que começaram a surgir relatos sobre o seu sofrimento psicológico ainda nos dias de hoje.

Nas últimas horas, a partir dos obituários, percebe-se que a narrativa pública mudou. Fala-se do atleta excecional, mas também das lutas internas. Nos anos pós-pandemia o tabu da saúde mental foi quebrado (passou-se até, em alguns círculos, do estigma para o exibicionismo), gerando-se fenómenos de empatia, num reconhecimento da complexidade humana.

Mas o aprofundar discursivo não significa, por si só, uma maturação estrutural, quando se constata que a saúde mental continua a ser tratada apenas como problema individual. Há mais abertura. Mas a tendência é ainda perguntar o que é que o individuo não conseguiu gerir, como é que ele se deixou chegar aquele ponto e por aí fora. A responsabilidade moral – quando não, culpabilidade – permanece individual. Não se interroga o coletivo, o social.

É impossível pensar no caso de Mamede sem interrogar um sistema de alta competição onde só se valorizava resultados. Uma cultura que não admitia falhas. Modelos de masculinidade que moldavam comportamentos e o que era suposto sentir. Os vazios institucionais pós-carreira. A falta de acompanhamento. A ausência de politicas de transição. A precariedade económica e emocional. O sofrimento de Mamede não foi exceção, mas sintoma.

Hoje Portugal está mais sensível ao tema. Existe um moralismo suave que nos leva a dizer que é importante pedir ajuda e que é preciso cuidarmo-nos, mas nunca se toca nas condições sociais, económicas e institucionais que moldam o sofrimento e elas são tantas vezes indissociáveis. É por isso um desenvolvimento discursivo incompleto aquele que temos hoje.

É apenas assente no individuo, sem questionamento das estruturas sociais. É uma forma de despolitizar existências e experiências. E é também demissão política, como se percebeu há poucas semanas quando Montenegro indicou Cristiano Ronaldo como exemplo para o país.

O arquétipo Ronaldo é usado como símbolo de produtividade e resultados quantificáveis. Mamede representa vulnerabilidade, contradições, humanidade. Não encaixa na retórica da mentalidade vencedora. Obriga a pensar em estruturas, cuidado, limites, falhas institucionais, repensar o próprio sistema. É por isso que desconforta. Mas foi e é real. Humano, como nós. 


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