Calcutá: quando a neblina emocional se vai dissipando
Foto de Rui Palma
Há imensas camadas, reverberações, sombras e vultos em “Soon After Dawn“, álbum de estreia de Teresa Castro, ou seja Calcutá, e no entanto eis um conjunto de temas que expõe como essa neblina emocional se vai dissipando, em momentos reveladores e transparentes.
Mais do que canções são peças sonoras onde a voz é por vezes utilizada como mais um instrumento, temas em sedimentos até se tornarem em vagas voluptuosas, misto de voz, muitas vozes, guitarra e ambiências, da qual resulta uma música circular, encantatória e intima.
Guitarrista clássica de formação, e multi-instrumentista – tocou o álbum quase na totalidade, por entre guitarra, harmónio, eletrónicas e outras palpitações – fez parte de algumas formações (Mighty Sands, Savage Ohms) e encetou colaborações para cinema e teatro, antes deste primeiro longa-duração, editado esta sexta-feira pela Ovo Estrelado, nova editora que já havia lançado, em Dezembro, um álbum de Afonso Sêrro.
A respiração é autoral, misto de folk espectral, ritual ambiental, com revestimentos sonoros em suspensão e uma sensibilidade emocional clara, embora existam ecos, afinidades e diálogos não diretos com outros universos (Grouper, Julianna Barwick, Caterina Barbieri, Lucrecia Dalt) que trabalham essa conexão entre a intimidade, bruma emocional, o uso da repetição como gesto meditativo e territórios sonoros. Não são influencias, são vibrações na mesma frequência, com timbre próprio.
Todos os gestos, ou a respiração emocional de Teresa Castro, vão no sentido do calor, do sensível, do quase confessional, do diminuir da distância consigo própria e com os outros, em vez do professar da distância. Há uma honestidade emocional raras, mas sem dramas. Música intensa que ilumina a inquietação, com espaço, delicadeza e sabedoria.
Álbum que capta momentos de recolhimento e memórias próximas ou longínquas, nunca saberemos, disponibilizando-se para lhe apreender os contornos, para melhor os superar com tranquilidade. Em momentos assim podemos escudar-nos defensivamente em sensações ensombradas, ou então, sem recusar a melancolia, transformá-la em qualquer coisa palpável, hipnótica e com imenso horizonte. Calcutá consegue-o.