Desigualdades extremas ou redistribuição: uma questão política
Todos os anos, nos últimos quinze, a Oxfam (confederação internacional de organizações que combatem as desigualdades, pobreza e injustiças sociais), revela um relatório anual sobre desigualdades. E a conclusão é sempre a mesma.
Têm aumentado de forma exponencial. Quase metade da riqueza do mundo está na mão de 1% da população mundial. A novidade é o contínuo agravamento da coisa. Enquanto a riqueza dos super-ricos vai aumentando, o número de pessoas que vive na pobreza (com menos de 6,64 euros por dia) não se alterou praticamente desde 1990.
Esta segunda, a Oxfam, no Fórum Económico Mundial, em Davos, revelou mais um relatório, alertando para uma concentração de riqueza sem precedentes e para governos que favorecem os bilionários em detrimento da larga maioria, numa lógica que ameaça direitos civis, enfraquece democracias e agrava desigualdades.
Por norma, os meios de comunicação aproveitam o relatório para títulos chamativos (“as 12 pessoas mais ricas do mundo detêm hoje mais dinheiro do que metade da humanidade”; “fortuna de bilionários bate recordes em 2025”; ou “fortunas crescem três vezes mais rápido desde a eleição de Trump”), com os bilionários sempre no centro, mas a questão das desigualdades tem outras camadas, embora os números mais pornográficos, nos façam recuar à monarquia ou ao feudalismo: hoje os senhores do mundo são apenas três mil bilionários que dominam a riqueza, a política e a comunicação.
Não há outro problema tão grave. Mas a lógica continua a ser a fuga para a frente, até à III guerra mundial?! A maior parte dos governos, em vez de apostar em politicas redistributivas, continua a reger-se pela enguiçada narrativa do crescimento económico – veja-se o que aconteceu em Portugal no final do ano, com o governo a exultar porque uma revista internacional, a partir da ficção do PIB, concluía que tinha havido um ano de bom desempenho económico, quando a diferença de rendimentos entre os mais ricos e a classe média é alta, ao mesmo tempo que existem cada vez mais pobres e gente precarizada – quando a questão é de concentração de riqueza.
Essa concentração combinada com influência política cria um ciclo de reforço: quem tem mais recursos molda políticas que perpetuam a sua vantagem. A crítica central é estrutural: não se trata apenas de “ricos versus pobres”, mas de poder versus democracia. As eleições presidências em Portugal expõem isso também. O país, de baixos salários e uma das maiores taxas de trabalhadores pobres da UE, não está no centro do relatório, mas a dinâmica — crescimento no topo e estagnação na base — replica-se aqui. A pressão imobiliária, alimentada por investimento internacional e políticas fiscais favoráveis a fortunas, cria um cenário onde a desigualdade económica se traduz em disparidade territorial e habitacional, enquanto o financiamento de serviços públicos (saúde, educação, transportes) está sempre sob pressão.
A forma como as nossas economias estão organizadas significa que a riqueza está cada vez mais concentrada nas mãos de alguns (com a sua riqueza a derivar de imóveis, heranças e finanças), enquanto a maioria mal consegue sobreviver. As desigualdades extremas criam uma classe de predadores globais, que exploram o resto da população. Agora assume-se às claras que apenas o dinheiro interessa. Desmembram-se países, territórios e populações, sem justificações ideológicas. A época dos consensos, do diálogo e da consolidação democrática foram à vida. O que interessa é descartar os que resistem, ou os fragilizados que estão a mais. O poder da brutalidade, do mais forte, do mais endinheirado, do mais desbocado, do mais cruel, está por aí.
A resposta terá de ser política. Um dia haverá políticas que terão de escolher entre representar a grande maioria, ou a ínfima minoria. O problema é que muitos dessa maioria, foram convencidos pelos da ínfima minoria, de que o modelo atual lhes confere liberdade, quando os envia para a precariedade. Outra história. Ou a mesma.