Tempo de voltar aos misteriosos Croix Sainte
Foto: Álvaro Rosendo
Foram uma das bandas mais influentes, e de maior culto, nos anos 80 em Portugal. Mas quase não deixaram rasto. Não era apenas a música. Era a poesia, a filosofia e a arte como acesso ao sentido da vida. Retrato de uma época com os Croix Sainte, na altura em que foi reeditado o disco “The Life Of He” (1985).
Conhecemos as armadilhas do tempo. A idealização ou nostalgia. Mas arriscamos: num curto espaço de tempo, nos anos 80, foram das bandas em Portugal de maior devoção. Os Croix Sainte eram respeitados pelos que os precederam (Xutos & Pontapés, Heróis do Mar), ombreando com os que começaram na mesma altura, de Sétima Legião a Mler Ife Dada, e inspiração para o que se seguiu de imediato (Ama Romanta, Pop Dell’ Arte), constituindo um caso de culto do qual se perdeu o vestígio.
Ao contrário de outros da mesma época, o seu nome dissipou-se. Porque a sua aura foi construída em espetáculos ao vivo, não havendo quase registos discográficos. Porque os seus membros continuaram no imediato o seu percurso. E porque se hoje a dificuldade é o excesso de informação e como rastreá-la, transformando-a em conhecimento, nas décadas de 80 e 90 a questão é a ausência de memória num país, como Portugal, onde existe dificuldade em reter e perceber a relevância de tantos acontecimentos sem pré-modelos precisos. Como os Croix Sainte.
Mas muitos dos que com eles se cruzaram não os esqueceram. “A forma de estar em palco do vocalista, intensa e poética, e a música ao mesmo tempo misteriosa e livre, fazia-os diferentes”, lembra hoje a gestora Margarida Rebelo, que se deslocava de Almada, “com um grupo de amigos”, quando sabia de algum concerto deles. “Remetiam para coisas que ouvíamos, de Joy Division a Bauhaus, mas eram outra coisa. Não havia nada assim. Tinham pinta. E deixavam uma impressão fortíssima.”
André Louro de Almeida
Foto: Álvaro Rosendo
A meio dos anos 1980 diz ter visto o vocalista nos jardins da Fundação Gulbenkian e pensou em ir cumprimentá-lo. “Mas não fui”, ri-se. “Adorava-os, mas havia ali uma gravidade que era talvez intimidante para uma adolescente como eu.”
Quase 40 anos depois, o então vocalista, letrista e performer, André Louro de Almeida, hoje mais dedicado à filosofia e aos temas do espírito, assume-se como um introvertido: “Naquele tempo sentia esse conflito entre a introversão e o prazer de enviar sinais cá para fora que não eram censurados. Essa projeção era irresistível. Havia um espaço onde podia gritar, dizer coisas e cantar em inglês. Havia satisfação, mas também zonas de conflito.”
Na voz, encontrávamos André, enigmático e místico. Na guitarra, Paulo Monteiro, com um som melódico e uma presença magnetizante. “O Paulo tinha ali uma coisa londrina que não se conseguia explicar”, declara André, “sem ter posto os pés em Londres.” Hoje Paulo continua na guitarra, mas nos Pop Dell’ Arte, para além de um percurso construído no design gráfico e na publicidade. No baixo, João Roberto, o mais discreto, hoje a operar como físico.
Na altura era ele que segurava o barco com o balanço certo, diz Luís San Payo, que viria a transformar-se num dos mais conhecidos bateristas da música portuguesa (Pop Dell’ Arte, Rádio Macau, Rodrigo Leão, Irmãos Catita são apenas alguns exemplos), exalando já nos Croix Sainte uma forma de tocar física que provocava a admiração de todos.
Em primeiro lugar, havia uma escola, a António Arroio, que funcionava como preâmbulo para quem queria ir para Belas Artes. “Quando chego à Arroio”, recorda Luís, “da minha turma fazia parte o André e na escola andava um sujeito com grande pinta, de quem toda a gente queria ser amigo, que era o Paulo.” Tornaram-se amigos. Estávamos em 1981. Paulo já tocava numa banda e Luís ia assistir aos ensaios. Nos intervalos, “o Paulo largava o baixo e pegava na guitarra e eu ia para a bateria, sem nunca ter tocado nada”, diz.
“Era a loucura! Durante trinta minutos, quando os outros iam tomar café, divertíamo-nos à brava. Até que pensámos em formar nós uma banda.” Primeiro surgiu o nome, Croix Sainte, “e depois entra o João, que andava em ciências e que era um amigo meu de infância.” André foi o último a entrar. “Eles tinham-me visto a cantar de forma improvisada nas escadas da escola e convidaram-me”, lembra.
“Recordo-me que os primeiros ensaios foram numa garagem dos Olivais, mas a circulação dava-se entre a Avenida de Roma, a faculdade de ciências e a António Arroio, de quem o meu pai foi um dos fundadores, com especialização em artes, e que tinha um ambiente único com muita troca de ideias.”
Foi no ginásio da António Arroio que Luís Caravela, hoje a viver perto de Sines, empresário de turismo rural, os viu pela primeira vez. “A minha namorada da altura convidou-me, conhecia-os e lá fui. Foi dos meus primeiros concertos. E adorei! Difundiam um misto de energia e de magnetismo. As pessoas tanto se envolviam fisicamente com a música como ficavam meio atónitas a olhar para o palco. Depois disso nunca mais lhes perdi o rasto e vi-os mais vezes. É curioso porque muita gente gostava deles porque também ouvia Echo & The Bunnymen e esse tipo de bandas. Comigo foi ao contrário. Foi por causa deles que comecei a ouvir pós-punk e os programas de rádio do António Sérgio.”
Depois dos ensaios nos Olivais, onde partilhavam a sala com os URB, dos gémeos Zezé e António Garcia, que depois viriam a integrar os Mler Ife Dada ou os GNR, seguiu-se a garagem da vivenda do pai de André, em Loures. “Foi ali que fizemos mesmo os primeiros temas”, recorda.
O primeiro concerto chegaria no final de 1982, em Belas Artes, na companhia dos Sétima Legião. “Isso foi organizado por mim”, recorda Luís. “Convidei os Sétima [Legião] e depois eles retribuíram com um concerto no liceu D. Leonor em que nos convidaram. Era amigo do fotógrafo e artista Álvaro Rosendo e um dia fui à associação de estudantes propor-lhes o concerto. Fiz o cartaz, bilhetes, fui à procura de um PA. Uma aventura. Mas aquilo encheu, gente à porta, foi bestial, apesar do amadorismo. E foi a primeira vez para aquelas duas bandas.”
Essa vontade de fazer, independentemente dos meios, diz tê-la herdado do 25 de Abril de 74. “Sentíamo-nos filhos de Abril. Havia essa coisa coletiva e militante de fazer os cartazes, pegar nos baldes de cola e andarmos a colá-los.” E foi assim que os concertos foram acontecendo. Em escolas, salas, no Rock Rendez-Vous, na zona de Lisboa, mas também no resto de Portugal, a veneração ia aumentando. “Havia uma afeição grande das pessoas quando saíamos à rua e as outras bandas um pouco mais velhas tratavam-nos com muito respeito o que nos surpreendia.”
Luís conta algumas histórias. “Depois de um dos primeiros concertos, alguém que trabalhava com os Heróis do Mar veio ter comigo, com um módulo eletrónico para bateria, dizendo-me que era uma oferta do bateria deles, o Tó Zé Almeida, que me vira na véspera e gostara muito. É incrível, mas até hoje nunca lhe agradeci! Os Xutos também estavam sempre a emprestar-nos material. Recordo-me de um concerto no Técnico, em que fazíamos a primeira parte dos UHF, na altura grandes, e a luz foi abaixo, comigo a aguentar aquilo, sozinho, durante imenso tempo. Mais tarde, os UHF, foram uma das bandas dessa época que me convidaram para tocar com eles.”
Quem também ficou admirador foi o técnico de som Amândio Bastos, talvez o profissional da área mais conhecido em Portugal, que os viu no segundo concerto, no liceu D. Leonor. “O Amândio transformou-se no nosso quinto elemento”, conta Luís. “Depois desse concerto ficou nosso fã, tinha um talento incrível para transformar qualquer sistema de som, e passou a acompanhar-nos por todo o lado o que foi uma mais-valia.”
Não era difícil ficar-se impressionado. Por vezes, André parecia cantar para si próprio, fazendo-o para nós. O seu corpo, e as palavras, pareciam encarnar, a um só tempo, a desordem interior e social da época. Depois existia a guitarra serpenteante e a métrica rítmica obsessiva, por vezes quase à beira da pulsão dançante, transportada pelo baixo e bateria. No contexto atual, aqueles concertos e atitude teriam toda a atualidade, como se comprova com algumas das bandas que mais estrondo tem provocado em 2021 (Dry Cleaning, Squid, Black Country New Road).
De onde vinha aquilo? “Gostava muito dos Simple Minds da primeira fase”, reflete Luís. “Curiosamente nunca gostei muito dos Cure ou Joy Division, que eram algo sombrios, mas quando os Minds vieram cá, em 1980, para a 1ª parte do Peter Gabriel, fiquei maravilhado. Tinham uma secção rítmica formidável. No primeiro álbum dos Street Kids existem lá linhas de baixo do Nuno Rebelo que o refletem. Depois havia os Roxy Music, o Brian Eno, os Talking Heads ou o David Thomas dos Pere Ubu, que têm pontos de ligação. Mas cada um tinha as suas referências.”
E no caso de André, de onde lhe vinha o misto de teatralidade e espontaneidade? “Não eramos muito auto-conscientes. Não havia uma estratégia cínica. O Roberto era sempre igual a si próprio. O Paulo tinha ali uma coisa londrina que não se consegue explicar. E o Luís era magnânimo, sempre generoso, psicologicamente saudável. As respostas que íamos obtendo davam-nos para perceber que havia formas de estar que comunicavam melhor do que outras. Mas era tudo muito espontâneo, mesmo se conversávamos mais do que fazíamos música. E isso depois transparecia no palco. Era uma ritualização das conversas em que usávamos a filosofia, a arte, a física e a ciência. Na altura, preocupava-me essa coisa do artista como fingidor. O Bob Dylan acreditava no que dizia, mas o Frank Sinatra não tinha de acreditar, podia representar um papel. Para nós, essa tensão foi-nos devolvida pelo Ian Curtis. Está a representar um papel que depois vai despir, ou é ele sempre assim, antes, durante e depois do palco? Esse mistério interessava-me porque eu não queria ser outra coisa em cima do palco.”
Os mais atentos à atualidade musical eram Luís e Paulo. “Eu via mais a banda como uma zona experimental entre a poesia, a filosofia e a espiritualidade”, reflete André. “O Luís era o mais musical e o Paulo, excelente músico e muito melódico, tinha uma relação quase revolucionária com a banda.” Os discos eram importados de Inglaterra, ou comprados nas duas ou três lojas de Lisboa que os tinham. Ouvia-se na rádio o Rolls Rock de António Sérgio. E quando havia um disco novo, “íamos para casa ouvi-lo. Era sagrada a audição”, diz Luís.
E depois havia todo um ambiente sociocultural partilhado. Aos sábados de manhã ia-se à feira da ladra, trocavam-se discos e ideias, gente de Campo de Ourique ou da Av. de Roma cruzava-se com os que vinham de Almada ou Barreiro. À tarde e noite o Bairro Alto, então a transformar-se num laboratório de ideias, cultura e boémia, ia-se enchendo de figuras vestidas de cinzento ou preto, cabelos cuidadosamente desalinhados e roupas à medida da imaginação de cada um. No Rock Rendez-Vous, ao Rego, havia concertos.
Foi ali que, em 1983, os Croix Sainte resolveram inscrever-se no 1º concurso de música moderna, alcançando a final, ficando no 3º lugar. Venceram os Mler Ife Dada, que conheciam bem. “Foi mais um pretexto para darmos mais uns concertos do que outra coisa”, lembra-se Luís. “A motivação era tocar, agitar, intervir. E depois estabeleciam-se muitos contactos. O [Nuno] Rebelo e o [Nuno] Canavarro também era malta que se ligava a nós. Havia troca. Procuravam-se as mesmas coisas. Havia um sentido de urgência comum.”
No ano seguinte haveriam de integrar uma compilação (Ao Vivo no Rock Rendez-Vous), onde constava o tema The life of he, gravado ao vivo. Foi no ano em que os Sétima Legião lançaram o álbum de estreia e António Variações já estava na TV. O disco dos Croix Sainte tardava. Sentia-se que já não tinham nada a provar. Eram um caso de adulação. Havia expectativa. Na rádio, Ricardo Camacho, membro dos Sétima Legião, e o produtor mais influente da época, dizia que ansiava pelo seu disco.
E quando sai o EP de cinco temas The Life of He, em 1985, numa edição de autor e produção dos próprios, existe uma mistura de sentimentos. Exulta-se por finalmente existir um registo do grupo e as críticas são positivas. Mas quem os vira ao vivo percebe que aquela vibração única que transmitiam não havia sido captada. “Se tivéssemos feito mais um ou dois álbuns tínhamos lá chegado”, diz André. “Essa força do palco, e tudo à volta — naquela altura o Bairro Alto era uma zona de experimentação incrível —, estaria presente na potência da gravação.”
“Analisávamos muito o que fazíamos”, conta Luís. “Gravávamos ensaios e concertos para nos aperfeiçoarmos. Crescemos muito por causa disso. Tínhamos um caixote de cassetes. Mas quando chegámos a estúdio perdemo-nos um pouco. Teríamos precisado de mais tempo.”
Mas não havia tempo. Foram anos loucos. “É incrível a quantidade de coisas que aconteceram em apenas três ou quatro anos”, diz Luís. Nesse mesmo ano são convidados para tocar em Toulose, França, sendo acompanhados por Álvaro Rosendo (são dele, e dessa viagem, as fotos aqui reproduzidas), e uns meses depois, em Paris. Nesse ano, ao vivo, Paulo Miranda, mais tarde produtor reconhecido (Old Jerusalem, Unplayable Sofa Guitar), haveria de os acompanhar em teclas e processamento de efeitos.
Em Portugal, no ano de 1986, é editada a compilação Divergências pela editora Ama Romanta, onde consta o tema We build cities dos Croix Sainte, e João Peste assumia em entrevistas que era fã, para lá de os olhar como exemplo, porque haviam mostrado que era possível manter a independência e editar discos para lá das lógicas mais industrializadas.
Mas não era apenas isso. Nos Croix Sainte sentia-se que a música era apenas um dos vértices da equação. A música era também a descoberta da literatura, do cinema, da arte, da filosofia, da política e das ideias, algo que a fornada de bandas que se lhes seguiria também adotava. “O João Peste é um claro exemplo disso”, expõe André. “Havia essa ponte entre literaturas e o que ele fazia em palco. Eu tinha muito Fernando Pessoa em mim. Surpreendia um pouco as pessoas que me abordavam, interrogando-me se o que dizia tinha a ver com o Ian Curtis, e eu dizia que era com o Pessoa. Estou a ser redutor, mas é verdade. Havia pontes com a pintura, literatura ou ciência, à qual prestávamos muita atenção.”
Para ele, os Croix Sainte eram a celebração do mistério. “O palco era isso. Essa noção de que a nossa psique funciona bem quando está ligada a qualquer coisa que não compreende por inteiro. Se tivéssemos modelos, diagramas e mapas para tudo seriamos criaturas secas. Esse era um dos diálogos com o Roberto. A ciência permite-nos movimentar melhor na realidade, mas desencanta-a. É o problema do desencantamento do real. Os Croix Sainte eram o reencantamento. Voltar ao mistério. Não num sentido esquizóide, mas como celebração.”
Mas, então, porque acabaram em 1987? “Não sei. O André desapareceu. Mas nunca falámos muito sobre isso”, diz Luís. “Sou, provavelmente, o principal responsável”, responde, por sua vez, André. “Comecei a sentir uma enorme densidade que era incompatível com o rock, o álcool em excesso, a marijuana e com uma certa inconsequência geral. Comecei a ser atraído para outras zonas da consciência. Não sei se foi o Brian Eno que disse que o rock é fundamentalmente música para machos em estado pré-orgásmico. Ele distingue a história da música entre pré e pós-orgasmo, o que faz sentido. E de repente, em sítios como o RRV, sentia que não havia muita gente interessada no que dizia. Estava-se ali para celebrar a juventude, o álcool e o sexo e eu não sabia se era aquilo que queria para mim. Claro que havia imensas exceções ao que estou a dizer, mas era o que sentia. Estávamos a fazer algo que, para mim, tinha qualidade, mas a lógica que a envolvia, não era a minha. E fugi disso.”
Durante algum tempo, os restantes ainda continuaram, contando com a colaboração em alguns concertos do saxofonista Rodrigo Amado ou do violinista Mário Resende (Duplex Longa) e chegou a falar-se na edição de um álbum, que nunca aconteceu. Mais tarde, nos dois primeiros filmes (Uma Pedra no Bolso de 1988 e Onde Bate o Sol de 1989) de um outro fã, o realizador Joaquim Pinto, seria possível ouvir a sua música. João Roberto não voltaria à música, mas os restantes não a abandonaram. “Ainda me recordo quando os Pop Dell’ Arte me vieram perguntar, sem grande esperança, porque eram fãs, se queria tocar com eles. Eu disse logo que sim e eles ficaram surpresos”, ri-se Luís, com larga experiência acumulada ao longos dos anos.
“Às vezes saía de um concerto do Rodrigo Leão, para um público selecto, e depois ia tocar com os Irmãos Catita até quase de manhã, e nesse dia, quem sabe, ainda era capaz de ir tocar com o Vítor Rua, em coisas para teatro ou dança.” Paulo ainda hoje é o guitarrista dos Pop Dell’ Arte. E André, depois de escrever livros, pintar ou produzir o álbum M (1997) de Anamar, teve também algumas experiências pela música mais ambiental.
“E ainda quero fazer algo de spoken word com som”, expõe, nomeando Laurie Anderson, Meredith Monk ou Jon Hassell como sendo figuras que admira. “Gosto de quem consegue combinar the big picture com a observação acutilante do detalhe”, diz, adiantando que irá convidar Rafael Toral e talvez os ex-companheiros Paulo e Luís. “Bem, não tarda nada, estão os Croix Sainte todos juntos, outra vez!”, ri-se às gargalhadas.
E revela. “De vez em quando vamos jantar todos e alguém diz: ‘Como é? Vamos pegar naquelas músicas que ficaram na gaveta e dar-lhes uma versão atual?’ E fica um ambiente elétrico no ar. Quase que se vê os pontos de poeira nos raios de sol pela janela. Portanto, tudo é possível!”
Texto publicado no jornal Público (Ipsílon) em Dezembro de 2021