Os dias em família de Jim Jarmusch
Há dias, numa entrevista, Patti Smith, afirmava que não existem regras para lidar com o luto, dando como exemplo a forma como experimentara a morte do marido, Fred Smith, apenas anos depois do choque dos primeiros tempos.
Qualquer coisa com contornos semelhantes dizia recentemente o realizador Jim Jarmusch, afirmando que fora já depois da morte do pai que o ficara a conhecer melhor, realçando que as relações entre pais e filhos são complexas, não existindo modelos gerais para adaptar.
Há quem ache que “Pai Mãe Irmã Irmão”, assim se chama o último filme de Jarmusch, é obra menor. Não é a minha visão. Nos seus filmes, os não ditos, são tão importantes como os enunciados. Daí que, sem projeção, pode restar um certo vazio.
O filme, exposição de relações familiares (silêncios, opacidades, simulacros, distâncias, contenções, ausências), possui aquele tom dormente, a subtileza do acontecer e o humor seco que caracteriza outras obras suas.
É um tríptico, entre a quase comédia da primeira metade, a austeridade da segunda e a nostalgia da terceira, com alguns dos atores da sua eleição (Tom Waits, Adam Driver, Cate Blanchett, Mayim Bialik) presentes, bem como pequenas nuances formais que introduzem ligações humoradas entre histórias (os relógios Rolex, o brindar com água, os skaters).
Dito assim, talvez pareça tudo meio banal, e é, mas aquilo que fica, a imprecisa melancolia exposta, é difícil de captar na tela. E isso é alcançado. Vivemos rodeados de ausências – pessoas que se afastaram, palavras que nunca foram ditas, versões de nós próprios que ficaram lá atrás.
E isso está lá, nos interstícios. No final, faz-se ouvir “These days”, original de Jackson Browne, eternizado por Nico, aqui cantado por Anika, respirando a transitoriedade do quotidiano e das relações.
Não existem traços de tragédia, o que seria relativamente fácil de expor. Difícil é representar essa ideia agridoce de que viver é aprender a conviver com o que não se resolveu. E o filme consegue-o.