O absurdo de existir segundo Dry Cleaning

Ideias simples que funcionam. As linhas de baixo de Lewis Maynard são circulares, a bateria de Nick Buxton metronómica e os acordes de guitarra de Tom Dowse dissonantes, amparando a vocalização surpreendentemente lacónica e pausada de Florence Shaw.

Os ingleses não se têm afastado muito disto desde 2019, quando começaram a ser notados por meia dúzia de pessoas, ao mesmo tempo que despontavam uma série de outros grupos no Reino Unido pós-Brexit (Black Country New Road, Black Midi, Porridge Radio, Squid e outros). Apesar de todos serem singulares, desse lote, eram aqueles onde essa diferença se sentia de forma mais pronunciada, pelo contraste entre a pujança da música, inspirada numa ideia muito livre de pós-punk, e a forma introvertida com que desfiavam observações.

Agora, ao terceiro álbum, “Secret Love“ (2026), depois de um segundo álbum menos conseguido de 2022, a lógica mantém-se. Na altura do primeiro álbum, “New Long Leg” (2021), em conversa com eles, diziam-se devastados por sentirem que a Inglaterra se havia fechado ao mundo.  

“O ‘Brexit’ Foi um acontecimento devastador para uma geração, como a nossa, que sempre foi impulsionada para se relacionar com o mundo de forma aberta e natural. De repente é como se tivesse sido erguido um muro entre nós e os Outros. As regras mudaram de forma muito violenta. Senti-me muito distante do sentimento de orgulho gratuito que via proliferar à minha volta”, dizia Florence na altura.

O que é curioso é que o sucesso desse primeiro disco lhes possibilitou viajar pelo mundo, permitindo-lhe novas experiências. E isso, de alguma maneira, sente-se agora. A começar pelo facto de terem ido procurar um tipo de produção diferente, depois de John Parish, habitual cúmplice de PJ Harvey, ter estado ao lado deles.

Desta feita é a galesa Cate Le Bon que assume a tarefa, e a sonoridade expande-se um pouco, com maior dramatismo entre temas, embora a discursividade livre de Florence, entre a banalidade do quotidiano e a crítica social, sempre com mordacidade envolvida, sejam o centro. Mas agora a música é mais climática, apesar das guitarras estridentes e da base funk vulcânica serem as mesmas, estrutura para a discursividade vocal e para todas as anotações pessoais sobre o absurdo de existir.

   

 

 

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