Eurovisão e as contradições da neutralidade

A cultura é sempre política. Produz imaginário, pertença, conflito, visibilidade e poder. Mas não é política institucional ou partidária: não legisla, governa, administra. A confusão entre estas duas dimensões — implicação política e identidade política — alimenta muitos debates hoje. A cultura questiona e desestabiliza. A política decide e executa.

A Eurovisão, que começa hoje, é um exemplo particularmente revelador desta tensão. Nos últimos dias, o coletivo que representa Portugal foi criticado por se declarar “apolítico”. Mas ainda mais problemática do que essa posição é a própria estrutura do festival — em Portugal representada pela administração da RTP — que insiste na narrativa da neutralidade.

A Eurovisão demonstra como um evento cultural pode ser instrumentalizado. Quando interessa afirmar valores de diversidade e inclusão, o festival assume-se político. Quando é confrontado com questões de política estrutural, refugia-se na neutralidade — como se vê na participação de Israel, apesar do boicote de vários países e dos protestos.

A ficção torna-se evidente. Quando convém legitimar o festival, repete-se que é “mais do que música”, argumento que também serve para contrariar quem lhe reconhece pouco valor artístico — posição que partilho, embora admita exceções e reconheça que a RTP, na última década, mitigou parte da sensação de pobreza estética. Mas adiante, porque não é isso que está em causa.

Nesses momentos, fala-se de representatividade, identidade, género, memória política, integração de minorias. Ou seja: fala-se de política.

Quando é para enaltecer, a Eurovisão é apresentada como espaço de diversidade e afirmação simbólica, e isso corresponde, na verdade, à sua história: sempre foi palco de disputas políticas. Mas essa celebração só é permitida enquanto permanece performativa, festiva e compatível com a narrativa que a organização deseja promover.

Quando surge um conflito real — como a presença de Israel num contexto de guerra e contestação internacional — a retórica muda. A mesma instituição que celebra política identitária passa a defender que “a música não tem nada a ver com política”. A política que dá visibilidade é bem-vinda. A que implica responsabilidade é negada.

A Eurovisão nunca foi neutra. Permitir ou excluir um país, ignorar um conflito, ou continuar como se nada fosse, é político. Protestos, boicotes e desistências mostram que o festival não existe num vácuo: é um palco onde Estados constroem imagens, disputam legitimidade e exercem poder.

A neutralidade, nestes casos, não é princípio — é estratégia de gestão do desconforto. Celebra-se a política quando serve para exibir diversidade. Exclui-se quando implica risco, consequências ou tomada de posição

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