Olof Dreijer: de ‘Silent Shout’ a ‘Loud Bloom’
Sou suspeito. Sempre gostei de Olof Dreijer. Ao lado da irmã, Karin Dreijer (Fever Ray), assinou algumas das obras mais relevantes das últimas décadas, como o notável “Silent Shout” (2006), dos The Knife, que fez agora vinte anos que foi lançado, ou algumas das faixas mais recomendáveis de Fever Ray, como no álbum “Radical Romantics” (2023).
É aliás interessante fazer essa viagem entre “Silent Shout”, eletrónica esquelética, de lascas cortantes, inquietante, sobrenatural, de sombras a preto e branco, profundamente invulgar, e o agora editado “Loud Bloom”, o seu verdadeiro primeiro álbum a solo. Nos The Knife a sonoplastia sempre foi muito dele. A vertente mais performativa e conceitual da irmã.
É agora interessante reconhecer a assinatura sonora desses tempos, num cenário diverso, com a sua postura artística a refletir uma profunda identidade queer e política.
Há vinte anos, mesmo quando as faixas eram marcadas pelos impulsos rítmicos dançantes, havia sempre uma melancolia e uma desordem algo sombria a atravessar a eletrónica. Agora existem ainda traços desse universo – psicadelismos, distorções eletrónicas, melodias nada óbvias – mas é a procura da luz e do prazer que domina, num registo onde a designação dos temas adota a temática floral.
Alguns temas já foram dados a conhecer em EPs dos últimos anos, com a influência afro-latina a percorrer todo o álbum, seja nos convidados (da colombiana Diva Cruz a Toya Delazy da África do Sul), ou nos motivos rítmicos que são manuseados (dancehall, kuduro, cumbia) e que se vão atravessando em alguns temas, numa sensibilidade rítmica que tem tanto de intuição como de precisão.
Em duo, ou a solo, independentemente dos contextos, a sua assinatura é imediatamente reconhecível. O facto de ser sueco, e discreto, talvez não tenha contribuído para um reconhecimento mais transversal ao longo dos anos, mas ainda vai mais do que a tempo.