No cinema com Billie Eilish
A primeira vez que vi Billie Eilish ao vivo, há sete anos, impressionou-me essa capacidade rara de criar intimidade no meio de uma multidão que sabe todas as letras de cor e as grita. Ela canta para vinte mil pessoas como se estivesse no quarto, e mesmo assim transforma tudo num facto de grandes proporções.
O filme-concerto “Hit Me Hard and Soft: The Tour in 3D”, realizado por James Cameron com ela, intensifica essa sensação. A câmara aproxima-se, respira com ela, e ao mesmo tempo devolve a euforia que percorre palco e plateia, tão ligados que se tornam inseparáveis. Um concerto seu é sempre um coro coletivo.
Entre todas as figuras pop que surgiram na última década, continua a ser a minha preferida. Em especial pelos primeiros anos, quando ainda não tinha sido domesticada e o seu universo de angústias juvenis criava identificação. Mesmo assim, não estava totalmente convencido a ir ao cinema e pôr uns óculos 3D.
A minha filha de onze anos tratou de resolver o assunto — talvez me tenha convencido, talvez me tenha arrastado - e lá fui. Como seria de esperar, o filme destaca-se pela ambição técnica e pela forma como transforma o concerto num espetáculo visual que usa a tecnologia para aproximar o espectador da emoção.
O 3D não se limita a registar o palco: coloca-nos dentro da atuação. Sente-se a respiração, o movimento, a energia e até a vulnerabilidade. A câmara flutua, aproxima e afasta, sempre ao serviço de uma experiência sensorial completa.
Adormeci por breves momentos - acontece-me sempre - mas o tempo não foi mal empregue. No final, dei por mim a pensar: e se tivesse sido Jean-Luc Godard a realizar, ele que tinha como fantasia filmar um jogo de uma das suas grandes paixões, o futebol, a partir de ideias como corpo, gesto, resistência e solidão?