A festivalização da cultura
Não vou dizer nada de novo. Digamos que se tem vindo a intensificar e na Primavera-Verão entra pelos olhos adentro. Há festivais de tudo e mais alguma coisa. Ainda agora, em minutos, tomei contacto com mais três.
O país vive numa espécie de “economia de festivalização”, onde a cultura se organiza em torno de eventos - festivais de cultura, música e artes de maior dimensão, festivais regionais temáticos, festas tradicionais, feiras culturais. e por aí fora. Não tenho dados concretos, mas arriscaria dizer que há um número de “eventos” anormalmente alto para a dimensão geográfica.
Se isto fosse sintoma de vitalidade, tudo bem. Mas tenho dúvidas. É fácil entrar em moralismos - como as redes adoram - e em críticas fáceis quando se fala disto, mas é inegável que existe aqui alguma perversão, com o excesso de eventos culturais a funcionar como sintoma que encobre a fragilidade da cultura regular ou quotidiana.
De forma simples. Portugal tem muitos festivais porque não tem um ecossistema cultural sólido. Os festivais são próteses para uma cultura que não consegue respirar todos os dias.
Em vez de refletirem vitalidade cultural, revelam a fragilidade de um ecossistema que não consegue sustentar criação contínua, espaços estáveis, financiamento duradouro ou públicos fidelizados. Os festivais funcionam como substitutos de uma estrutura cultural sólida: dão visibilidade, números, bons relatórios e excelentes sorrisos e fotografias nas redes, mas raramente criam solidez, continuidade ou risco. A programação regular, mais silenciosa, perde espaço num país que tenta compensar vulnerabilidades com eventos de impacto político-mediático.
O problema não é a quantidade de festivais, mas a ilusão de abundância que se cria, mascarando os problemas, empurrando-os com a barriga, como é norma. A cultura torna se dependente destes momentos episódicos, enquanto artistas são impelidos para um papel de prestadores de serviços para calendários turísticos. Uma forma suave e institucional de precariedade — favorecida, claro, pelo clima ameno da estação. Não vai ser nada fácil contrariar esta lógica que está mais do que instituida.