Fidju Kitxora: salto para o infinito

A primeira vez que escrevi sobre Fidju Kitxora fi-lo de forma totalmente entusiasta.


Tinha acabado de ouvir o álbum “Racodja” (2024), um desses momentos em que parece que o nosso corpo e sensibilidade capta a tradução sonora de algo que intuíramos que existia, mas que nunca ouvíramos assim.


Ou, por outras palavras, como se fosse a manifestação de uma verdade que já existia, mas que ninguém ainda conseguira expressar daquela maneira. Ou ainda de outra forma: como se fosse a expressão do que as palavras nem sempre conseguem transmitir.


Tão incrível quanto isso. Acabava esse texto assim: “O individual ressoa no coletivo, as incertezas pessoais nas globalizadas, numa operação musical atravessada por uma energia vital redentora, capaz de captar o que é, e a potência do que poderá ser. Um tremendo salto de fé.” Foi sem dúvida o álbum que mais me marcou dos que ouvi nesse ano.

Depois fui assistindo aos excelentes espetáculos ao vivo, à previsível e progressiva afirmação fora de Portugal, e conheci o seu guia, que opta por se manter na sombra, o que é respeitável, e a minha admiração foi crescendo.


O ano passado, ainda sem saber grande coisa sobre o seu percurso, e depois de ver o filme “Sirat”, realizado por Óliver Laxe, com banda-sonora de Kangding Ray, enviei-lhe uma mensagem a dizer que não sabia bem porquê, mas que achava que iria gostar de ver aquele filme.


Para mim, o objeto artístico que melhor traduz o presente, não de forma realista, mas “a sensação de impotência que se respira, e ao mesmo tempo o salto de fé que talvez seja preciso realizar para o superar.”


Semanas mais tarde, fui ouvir pela primeira vez, alguns lançamentos do passado recente do músico-produtor por detrás de Fidju Kitxora, que não conhecia. E fiquei siderado. Aos meus ouvidos havia ali qualquer coisa de “Sirat”.


Discos de música ambiental, ou tecno, assinados com pseudónimos como Nzungu ou Ha Kwai, música expansiva e emocional, ressonante, tanto evocando o passado como a potência de o superar, que tanto lembram o ambientalismo de Basinski, como o tecno de Ray. E acima de tudo, discos de digressões em procura de algo, de uma certa reconciliação, que mesmo quando é de um sentido coletivo, acaba por ser sempre de si próprio.


Agora eis que chega o segundo álbum, “Ti Manxe”. Esse sentimento de abstração está lá, mas ao serviço de um território que não repousa num plano fixo, entre Cabo Verde e Portugal. Como escrevi há dias, encetando comparações especulativas entre os universos de Fidju Kitxora e Bandua, para mim, estamos perante algo maior do que apenas música: formas de pensar, imaginar e existir.


“Ti Manxe” é mais uma obra fascinante que cruza eletrónicas, diáspora cabo-verdiana, Santiago e Cova, práticas transnómadas, recolha de sons, procuras coletivas e individuais, pertenças e memórias, com participações virtuais e reais (Bitori, Juninho Ibituruna, Danilo Lopes, Tó Trips) e criação de identidades musicais múltiplas.


Como no primeiro álbum, existem tanto momentos de suspensão, ecos e fantasmas, como transe, deriva rítmica, fisicalidade. Uma procura sem fim, com muitas ramificações, mas que nunca se perde pelo caminho, revelando-se inventiva, vivida, com consequências que nunca conheceramos assim. Música infinita, em construção, num fluxo entre prazer, gentileza, adrenalina e balanço indomesticável. Essencial.



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