Na casa de Ana da Silva
É e não é do dia. 25 de Abril. Mas sai-se dos três pisos da galeria Porta33, no Funchal, com uma sensação de liberdade.
E também com essa ideia de que em tudo o que se envolve (música, iconografia, filmes, dança, imagem, desenhos, pintura), Ana da Silva é profundamente ela, poética, lírica, experimental, subtil, não linear, intuitiva e no entanto, universal.
Bonito isso. E inspirador. Para quem conhece um pouco do seu percurso (fundadora do grupo de culto The Raincoats no período pós-punk, que marcou imensa gente, de Kurt Cobain a Kim Gordon, trabalhos a solo, ou para filmes e dança) reconhece em todos esses gestos, sonoros ou plásticos, a mesma poesia, um tecer quase artesanal e sentido de abstração.
Em 2020 estava com ela no Porto (no âmbito da conferência Kismif na Casa da Música) quando morreu Ricardo Camacho (músico, produtor, médico, essencial para a alavancar da música moderna portuguesa nos anos 80, com a Sétima Legião, e outros).
Emocionou-se. Não porque tivessem privado muito, mas porque reconhecia nele um espírito livre, alguém que partiu do Funchal um dia, como ela, para cumprir os seus desígnios.
Como em muitos outros artistas madeirenses, de Lourdes de Castro a Rigo 23, ou Silvestre Pestana, existe em todos (interpretação livre minha e talvez abusiva), apesar de grandes diferenças, um olhar comum sobre a ilha como origem, limite, ferida, motor e fantasma.
É curioso constatar que Ana da Silva, em Londres, mantém uma estética de silêncio, intimidade e contenção. Agora com esta exposição, “Noise”, regressa simbolicamente à sua ilha, com obras, arquivos e objetos seus.
A importante curadoria é de Miguel Von Hafe Pérez, que consegue situar-se no cosmos de Ana na perfeição. Encontraram-se um ao outro. Coisa feliz e rara.
Sai-se da Porta33 com o privilégio de se ter estado na casa de Ana da Silva. Alguém profundamente livre. Sem necessidade de o exibir, como se tornou comum nos dias de hoje, onde o simulacro, a aparência, substituiu a verdadeira liberdade.