Novos àlbuns de Fidju Kitxora e Bandua: diferentes e familiares

Foto Bandua: Yoz Üsyon

Tenho andado mergulhado nos segundos álbuns de Fidju Kitxora e Bandua, ambos prestes a ver a luz do dia. O primeiro disco dos Bandua marcou-me há quatro anos. O de Fidju Kitxora conquistou-me há dois.

Agora chegam novas obras — Ti Manxe, de Fidju Kitxora, com edição a 29 de abril, e II, dos Bandua, a 26 de Junho — e volto a sentir a vibração de quando a música abre portas para algo maior do que ela própria.

Não é apenas pelo som. Quase nunca é só isso. É pelo que a música também convoca: sentidos subterrâneos, memórias reanimadas, novos significados e relações inesperadas entre mundos que à partida não se tocam. Sempre imaginei que Fidju Kitxora e Bandua habitavam universos paralelos, e na verdade partem de geografias, estéticas e histórias diferentes, mas ao ouvi-los em sequência percebo também as pontes.

A ligação mais evidente está na forma como tratam aquilo que chamamos, por comodidade, de tradição. Usam-na como dinamismo, matéria viva, moldável, sujeita a desmontagens e recomposições. A memória, para eles, não é um ponto de chegada — é um campo de interrogação e experimentação.

Bandua partem do cancioneiro do interior português, sobretudo da Beira Baixa, e transformam poemas e melodias antigas em corpos eletrónicos ou climas ambientais. A voz de Edgar Valente ganha uma dimensão quase ritual, enquanto os ritmos de Bernardo D’Addario, os adufes ou os ecos dub criam uma sensação simultânea de intimidade e estranheza.

Fidju Kitxora, por sua vez, trabalha com pulsações da diáspora cabo-verdiana e de outras linhagens afro-portuguesas — funaná, semba, kuduro, afro-house — misturando-as com gravações de campo, eletrónica densa, experimentalismo e atmosferas que oscilam entre tempestade e neblina.

No novo álbum, Bandua soam mais etéreos, quase xamânicos. Fidju Kitxora, em contraste, ergue batidas vigorosas e um balanço afro-diaspórico que se apoia em camadas vocais fragmentadas e texturas digitais. Mas ambos partilham uma tensão fundamental: o diálogo entre o corpo e a máquina, entre o pulso ancestral, o ritmo e a manipulação eletrónica.

Há também uma dimensão geográfica reinventada. Bandua deslocam o interior rural para o mapa contemporâneo, fazendo-o dialogar com circuitos urbanos e internacionais. Fidju Kitxora constrói uma Lisboa–Cabo Verde imaginada, onde a diáspora se torna laboratório de identidade. Nenhum dos dois cria propriamente música local ou global: criam territórios híbridos, ficções identitárias que funcionam como novas cartografias.

Nos Bandua, há um imaginário quase litúrgico, com vozes que oscilam entre o canto aldeão e o gesto sacerdotal. Em Fidju Kitxora, domina o mistério, a imprevisibilidade, a sensação de ritual sensorial que transforma cada atuação numa passagem catártica e iniciática.

Em ambos, a ideia de concerto deixa de ser espetáculo e torna-se cerimonial. Apesar das diferenças, partilham uma ética comum: reinventar radicalmente a tradição, usando eletrónica, voz e experimentação para criar algo que é simultaneamente memória, presente e projeção de futuro.

E há ainda uma camada mais profunda. Tanto Bandua como Fidju Kitxora operam fora da lógica Ocidental de mundo único e linear. Cada um à sua maneira devolve-nos a ideia de que existem múltiplos universos coexistentes — mundos que sempre estiveram aqui, mas foram silenciados.

Bandua evocam uma cosmogonia da terra: a memória como presença, o paganismo rural, o território como organismo vivo. Fidju Kitxora convoca cosmologias afro-atlânticas: ilhas, espíritos, diáspora, sobrevivência cultural, feridas e reinvenções.

No fim, não é apenas música. É uma forma de pensar, imaginar, existir. Com eles, o interior e a diáspora deixam de ser margens e tornam-se motores de criação. Emocionante. Voltarei a eles.

*Este sábado, 25 de Abril, haverá uma escuta coletiva do novo álbum dos Bandua, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. A 3 de Maio, 19h, no Bota, em Lisboa, sessão de escuta do novo álbum de Fidju Kitxora. 


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