A tiktoktização da realidade

Não há muito tempo, quando se queria nomear uma certa infantilização das redes, dava-se como exemplo o TikTok. Agora é o exemplo a seguir. Dizia-se que era só pequenos vídeos irrelevantes, memes e demais parafernálias narcísicas. Depois, para combater o sucesso, o Instagram foi-se transformando num seu sucedâneo, no formato, conteúdo e forma de consumo, com os algoritmos priorizando fragmentos de vídeos e a relegar para irrelevância fotos e textos. Até os gatinhos desapareceram. O objetivo é prender a atenção. Lucro.

Nos últimos meses essa estratégia é assumida. No meu feed quase já não vejo fotografias, curadoria, estética ou até a ilusão de uma vida perfeita aos quadradinhos, como era recorrente.

A fotografia ainda está lá, de vez em quando, mas parece o parente idoso que ainda se convida para o jantar de Natal por educação e porque para o ano não se sabe se ainda vai estar por cá. Agora temos um reels infinito, onde tudo é estímulo, movimento, dopamina, vídeos curtos, sons virais, cortes rápidos. Só gente a mexer a boca – raramente ligo o som – a falar para uma câmara, a fazer gestos impetuosos, ou como quem está na prédica.

Outro paradoxo. Foi-se menosprezando o jornalismo – e o próprio não é inocente nessa menorização – mas ironicamente isso em vez de gerar reflexão, ou pensamento crítico, abriu apenas espaço para que toda a gente se sentisse jornalista sem o ser. Rapidamente se passou do simplista “os media mentem” para o caricato “eu também posso fazer isto!” Enquanto o jornalismo era atacado na sua credibilidade, tratado como elitista ou irrelevante, crescia a fantasia de que informar é apenas “confessionalismo” ou “falar com convicção”.

Hoje não há quem não tenha o seu podcast, um microfone USB e uma confidência para oferecer, por norma confundida com informar, comunicar, contextualizar, produzir sentido, com alguma universalidade. Agora que existe o vazio jornalístico, qualquer um se instala nele.

Mas a tiktoktização da realidade não se reduz ao instagram. Está por todo o lado. A contaminação é feita nos dois sentidos. Passou para o lado de muitos media profissionais. O real é agora também um feed infinito, onde tudo precisa de ser curto, imediato, emocionalmente eficaz e descartável. O mundo torna-se uma sucessão de micro-eventos que não deixam rasto. O que não provoca agitação em segundos, está condenado à irrelevância.

Durante anos, dizia-se que todos os problemas nasciam nas redes. Não é verdade. Elas ampliam, mas são mais efeito do que causa. No ecossistema comunicacional atual, redes e alguns media tornaram-se indistintos, principalmente num país como Portugal, onde a TV ainda domina, e onde o silêncio é vivido como desconforto e a complexidade pouco eficaz.

Generalizo, eu sei. Há, felizmente, exceções a este cenário. Boas práticas. E alternativas também, desde que se imagine que não é uma fatalidade ter algoritmos de costas voltadas para o bem-comum. Mas fica para outra altura. O espaço para escrever acabou. Devia pensar em gerar um vídeo.

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