Encruzilhadas do ecossistema da música no Westway Lab
Foto: Scúru Fitchádu
Nas últimas semanas participei em dois fóruns de reflexão sobre o ecossistema da música popular no momento atual. Primeiro, no Act In Synch, em Foz Côa, com atores da indústria vindos essencialmente da Europa. E na última semana, no Westway Lab, de Guimarães, reunindo profissionais portugueses e estrangeiros.
Nenhum ecossistema é imune às oscilações do mundo, e o artístico, mais especificamente, a música, por norma caótico, fragmentado e disseminado, para mais num país fragilizado como Portugal, ainda o é mais. Na maior parte das conversas em que participei, pressentia-se que, em todas, existia uma sombra omnipresente, raramente nomeada – chamemos-lhe crise do capitalismo, por comodidade. Uma enfermidade estrutural, que contamina todos os aspetos localizados, mas porque há sempre urgência em pagar a renda ao final do mês, e é um tópico que gera impotência, é olvidado ou deixado para depois.
Vivemos no eterno presente. É por isso que, a música popular, habita vários patamares e contradições, entre funcionar como tecido social, criar pertença, memória ou linguagem comum, mas o mercado a exigir-lhe que seja produto, com métricas, escala, presença digital, performance constante. Aderir ao algoritmo significa, por norma, perda de especificidade cultural. Resistir-lhe menor visibilidade. A economia da atenção exige profissionalização total. É-se músico, criativo, mas também, gestor, editor, comunicador, empreendedor de si mesmo.
Por cada exemplo de sucesso, existem outros que vão ao tapete, cansados, saturados, doentes, precarizados, sem proteção laboral, fraca mediação institucional. Foi também sobre isso que se discutiu num painel sobre Saúde Mental na companhia de Zé Roberto (Lovers & Lollypops), Kat Jarby (Kaja Managment) e João Araújo (Gig Rocks). Ao nível dos consumos, e dos circuitos, dois vértices muito diferentes se abrem. Um para quem tem poder de compra, adquire bilhetes com antecedência e não perde grandes espetáculos (seja Rosalía ou festivais de grande dimensão). E um outro mais alternativo, mais resistente aos avanços do neoliberalismo, que aposta em pequenos festivais, concertos mais intimistas ou lógicas onde o bem-comum e a formação de comunidade, é o centro. Sendo simplista, há uma divisão entre cultura pública e do mercado.
Em parte, foi sobre isso que se falou, quando se debateu o circuito da música ao vivo com Ricardo Areias (Caaa), Roberto Roque (Texas Clube) e Beatriz Gonçalves (Malfeito). Durante muito tempo, depois do irromper do digital, dizia-se que era através dos concertos que os músicos geravam receitas. Agora até isso é posto em causa, com mudanças nos consumos e a ameaça de sustentabilidade de modelos que caducam. Há, claro, quem resista e foi sobre isso que se falou.
Daí irrompe um outro paradoxo. Há muito que a exportação, o alargar de mercados, é visto como porta de saída para um território pequeno e periférico. O nome dos Máquina – como antes dos Madredeus, Ana Moura, Moonspell, Buraka e outros – estava na ponta da língua, mas essas são exceções longe da norma. Nesse campo, foi interessante a conversa sobre Intercâmbio Ibérico, com Jordi Casadesús (MMV), Mikel Amundarain (Last To Ur) e Hélio Morais (Linda Martini, Primavera Tours), onde ficou a ideia que é preciso intensificar sinergias.
Por outro lado, como reação, a uma globalização que parece potenciar desigualdades, quando se esperaria maior equidade, há cada vez mais pequenos festivais e comunidades criativas locais. Uma pergunta que perpassa: deve o Estado, através dos seus organismos, corrigir assimetrias ou programar?
Uma coisa é certa. A importância do acesso a financiamentos públicos é decisiva para garantir pluralidade, emergências e consistências, num tempo de grandes incertezas. Foi sobre isso que Sara Machado (Europa Criativa) e Pedro Barbosa (DGartes) discorreram, sob minha moderação. Pelo meio falou-se de IA e de como a sua disseminação tem vindo a alterar a paisagem musical, e não só, e também, num futuro não muito distante, a forma como se concorrerá a fundos públicos.
No último dia alguém dizia que tinha de haver mais partilha de conhecimento, de informação e de saber, entre todos. Logo a seguir alguém recordava que isso nem sempre é possível porque todos competem entre si, e isso é particularmente visível em situações de precariedade, quando não existe fatias do bolo para todos. Ou seja, como em muitos outros planos da vida em sociedade, existe essa ideia de que o Estado financia, na maior parte das vezes, a sobrevivência, não a autonomia.
O mais estimulante do Westway Lab é perceber que quando se sai da ideologia da divisão (geracional, sociopolítica ou outras), por medo ou moralismo – que é o que a nuvem capitalista que paira em cima deseja: que quem está cá em baixo conflitue uns com os outros – começam a ser engendradas outras hipóteses.
Fala-se de cooperativas de músicos e outros agentes, de plataformas de distribuição geridas por músicos, explorados pelas grandes plataformas ou multinacionais, de fundos de solidariedade entre pares, de organização, de políticas públicas que tratem a cultura como trabalho, de criar circuitos paralelos.
Fica a ideia que é preciso imaginação estrutural em vez de sobrevivência permanente. Mas nem só de conversas ou palestras vive um festival com música no seu centro, onde se passa o tempo a deslizar entre concertos, alojamentos, partilhas, território local em convergência com o mundo. Dos concertos, do que vi, ficou-me Carlos Maria Trindade, Sunflowers, Gaia Banfi, Scúru Fitchádu, Mxgpu, Malva ou Sofia Leão. Houve também conversas que juntaram Jim Jarmusch a Rodrigo Areias ou DJ Vibe a Rui Vargas. Estes dois últimos mostraram, falando da sua biografia que se confunde com a história da cultura da música de dança, como temos dificuldade em fixar memória – diferente de nostalgia.
Muito do que hoje está na ordem do dia teve o seu início lá atrás, seja ao nível dos problemas, como das potencialidades, mas o facto de essas narrativas, que marcaram muitas existências, não terem sido refletidas de maneira consistente, faz com que pareça que estamos sempre a recomeçar. Tanto mais verdade, quando se sabe que o campo da música é difícil de situar e mapear.
Não será o maior dos problemas, dirão aqueles que se fixam apenas nas conflitualidades decorrentes do presente e da economia minguante. Talvez. Mas a verdade é que está tudo ligado. Sem produção de sentido, de conhecimento, de significados, será mais difícil identificar as perguntas relevantes a fazer, para melhor chegar às respostas.