Wu Lyf : o regresso inesperado

História curiosa a dos ingleses Wu Lyf. Quando surgiram, em 2010, deram de imediato nas vistas pelos concertos intensos, apesar da quase ausência de promoção.

Tive a sorte de os ver nesse ano, em Paris, ao vivo. “É rock físico, ritualizado, sem amarras”, escrevia na altura. “Há momentos de um lirismo insaciável e os músicos olham-se em cumplicidade, antes de partirem para a vertigem rítmica, repetindo gestos mecânicos, numa massa sonora de emoções desamparadas transformadas em música, misto de raiva e impotência participando do mesmo movimento. Às tantas o cantor parece perder o controlo, o caos instala-se, a música entra nos ouvidos, crava-se no corpo.” 

A envolver tudo uma vontade politizada de lutar contra a letargia. Um ano depois surgiu o álbum de estreia, “Go Tell Fire to the Mountain“,  um bom registo, mas que ainda assim não conseguia captar por inteiro a experiência que eram os concertos. Depois quase da forma misteriosa como aparecerem de forma fulgurante, com concertos memoráveis, um álbum e culto fervoroso, terminaram abruptamente, com um comunicado lacónico. Nunca gostaram de holofotes e preservam independência. Isso deve ter tido o seu peso. Agora, depois de quinze anos de silêncio, regressam com novo álbum.

Ia com algum receio para “A Wave That Will Never Break”, assim se chama o álbum lançado na última sexta, não por aquelas narrativas preguiçosas sobre idade e regressos, mas porque a sua música contém uma dimensão emocional, “maior do que a vida”, que poderia revelar-se desajustada. E não só esse efeito não se sente, como o seu som parece ajustar-se agora com mais acutilância, mantendo intacta a singularidade. Claro que existem traços de familiaridade – a voz apaixonada, a instrumentação rítmica, o caos controlado, com zonas de turbulência e lugares de contemplação, por entre espasmos.

Mas sente-se uma outra respiração, mais clara e vital, e para isso terá contribuído a produção de Sonic Boom (existem momentos que nos levam até aos Spacemen 3), que como se sabe vive em Portugal, tendo sido o disco, ao que parece, gravado nos estúdios Namouche de Lisboa. Uma obra brilhante. Agora vêm aí concertos e a expetativa é muita. Em Agosto, estarão em Coura.

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