Jovens e trabalhadores, finalmente!, protestam no espaço público, e as TVs chamam-lhe “violência Urbana”. Vergonhoso.

Basta olhar para os últimos meses. Desde Maio de 2025, uma sucessão de protestos, revoltas e movimentos de contestação envolvendo jovens, trabalhadores e amplos sectores da sociedade tem atravessado países tão distintos como o Bangladesh, o Nepal, a Indonésia, Marrocos, Madagáscar, o Peru, a Argentina, a Bulgária, as Filipinas, os Camarões, Timor-Leste, a Índia, a Albânia, a Alemanha, a Suécia, a Bélgica, a Espanha, a Itália, a França ou Portugal.

Em alguns casos, esta mobilização contribuiu para a queda de governos; noutros, travou privilégios, arrancou concessões, reforçou serviços públicos ou forçou demissões. Apesar das diferenças históricas, culturais e políticas entre estes países, existe um traço comum que atravessa realidades tão diversas: a percepção crescente de que as instituições deixaram de responder às necessidades da maioria e passaram a proteger interesses cada vez mais concentrados.

Reduzir este fenómeno a episódios ocasionais de desordem ou de alegada “violência urbana” constitui uma forma conveniente de evitar as questões essenciais. Em Paris, por exemplo, enquanto numa praça a polícia perseguia manifestantes, na vizinha Place de la République centenas de músicos da Orchestre du Nouveau Monde actuavam pacificamente em protesto. No entanto, toda esta diversidade de expressões cívicas acabava frequentemente reduzida ao mesmo denominador comum: a necessidade de repor a ordem.

Não foram apenas os jovens a ocupar o espaço público, embora tenham assumido, muitas vezes, o papel mais visível. Em torno deles reuniram-se trabalhadores, estudantes, reformados, pessoas em situação de precariedade, famílias esmagadas pelo aumento do custo de vida e cidadãos sem qualquer tradição de activismo político.

O que os aproximou foi um sentimento partilhado de bloqueio e de injustiça perante sociedades onde a riqueza se concentra, a habitação se torna inacessível, os serviços públicos se degradam e a promessa de futuro e progresso deixa de parecer credível.

Nas últimas semanas, esta dinâmica começou também a manifestar-se em Portugal. O desgaste acumulado ao longo de décadas resulta de causas estruturais que não desapareceram com ciclos ocasionais de crescimento económico residual nem com as alternâncias partidárias. O hipercapitalismo financeiro, a erosão dos mecanismos de protecção social, a transformação da habitação em activo especulativo, a crise ambiental, o enfraquecimento da capacidade reguladora dos Estados, a ascensão da extrema-direita e a dificuldade das forças progressistas em apresentar horizontes mobilizadores criaram um terreno fértil para a frustração colectiva, com reflexos visíveis, entre outros domínios, na saúde mental.

O modelo socioeconómico dominante, por vezes, continua a produzir riqueza mas o elevador social parece bloqueado. A redistribuição tornou-se cada vez mais insuficiente para assegurar estabilidade, mobilidade e expectativas de futuro à maioria da população.

Desde a crise financeira de 2008 que os sinais deste mal-estar se acumulavam. O surpreendente não é que estejamos a assistir a protestos, revoltas ou explosões periódicas de indignação. O verdadeiramente surpreendente é a demora com que surgiram. Durante anos, multiplicaram-se os indícios de ruptura sem que a resposta política, mediática ou institucional fosse capaz de os interpretar na sua profundidade.

Apesar disso, grande parte da cobertura mediática continua a concentrar-se quase exclusivamente nos efeitos e aspectos mais espectaculares da crise, privilegiando imagens de confronto em detrimento da compreensão das suas causas. Quem acompanhasse muitos noticiários poderia concluir que a questão central consiste em determinar se determinados actos são obra de arruaceiros ou antecipar a intensidade da resposta policial perante manifestações e acampadas. O essencial desaparece. Ficam apenas os efeitos.

Esta opção informativa está longe de ser neutra. Quando o poder não sabe responder aos problemas de fundo, a violência tende a tornar-se a narrativa dominante e as condições que a antecedem tornam-se invisíveis. A atenção desloca-se das origens do conflito para as imagens que ele produz. Discutem-se montras partidas, detenções, confrontos e danos materiais, mas raramente se dedica o mesmo tempo à análise dos salários estagnados, das rendas incomportáveis, das desigualdades persistentes, das injustiças sociais, da ausencia de politicas publicas efectivas, da precariedade ou da ausência de perspectivas para milhões de pessoas.

A violência surge então como um fenómeno aparentemente espontâneo, desligado de qualquer contexto social, económico ou político, como se as sociedades entrassem subitamente em combustão sem razões identificáveis. Trata-se de uma narrativa particularmente perversa porque transforma sintomas em causas e efeitos em explicações. Ao fazê-lo, despolitiza o conflito social e reduz realidades complexas a caricaturas simplificadoras. Quem protesta passa a ser julgado pelos excessos de alguns; quem governa deixa de ser questionado pelas condições que tornaram a contestação inevitável. Em vez de compreender uma crise, procura-se apenas administrar a sua representação mediática.

Mesmo quando se discute a chamada “violência urbana”, raramente se aborda a sua dimensão relacional e recíproca. Fala-se da pedra arremessada, da montra partida ou do carro incendiado, mas quase nunca da incapacidade de diálogo das instituições ou da forma como parcelas crescentes da população passaram a ser encaradas pelo Estado. Em demasiados casos, o descontentamento social deixou de ser tratado como um problema político que exige compreensão e resposta para passar a ser visto como uma ameaça à ordem que requer vigilância, contenção e controlo. Antes de serem ouvidas, muitas pessoas são classificadas como suspeitas; antes de serem compreendidas, são enquadradas como um risco.

Esta transformação é reveladora. Quando sectores cada vez mais amplos da sociedade deixam de acreditar que as instituições os representam, o Estado tende a responder mais através da linguagem da segurança do que da participação democrática. O cidadão descontente deixa gradualmente de ser visto como alguém que formula uma reclamação legítima e passa a ser percebido como alguém que perturba o funcionamento normal da sociedade. É nesse momento que o conflito político é deslocado para o terreno da ordem pública, onde as suas causas desaparecem e apenas permanecem os seus efeitos.

Talvez a questão decisiva não seja perceber porque irrompe a violência, mas compreender porque tantas democracias parecem incapazes de ouvir os seus cidadãos antes de estes atingirem o ponto de ruptura. Em Portugal, como noutros países, essa incapacidade é frequentemente agravada por uma esfera mediática e comentadora demasiado próxima dos enquadramentos dominantes, pouco dada ao distanciamento crítico e cada vez menos preparada para interpretar a complexidade do real.

A verdadeira ameaça às democracias não reside nas manifestações, nem sequer nos seus excessos ocasionais. Reside na incapacidade persistente de reconhecer e enfrentar as causas que alimentam o descontentamento colectivo. Enquanto se continuar a confundir os sintomas com a doença, a gerir imagens em vez de resolver problemas e a responder com securitização onde é necessária participação, cada nova crise surgirá como uma surpresa. Não porque seja imprevisível, mas porque se insiste em não ver aquilo que há muito está diante de nós.

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