João Pimenta Gomes entre dois desertos
Foto: VB, performance nos Jardins Bombarda,em Novembro, no contexto do LIsboaSoa.
Há artistas que escolhem um território. João Pimenta Gomes prefere habitar na fronteira entre vários. O lançamento recente do álbum de estreia Dois Desertos (Amor in Sound), praticamente em simultâneo com a inauguração da exposição New Age no MAAT, torna evidente essa recusa de separar música, arte sonora, escultura, espaço e escuta.
Gravado em Los Angeles durante um único dia, produzido pelo histórico Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Beck, Yoko Ono), e com as participações de Abe Rounds (percussão) e Gabe Noel (contrabaixo e violoncelo), o álbum centra-se nas sonoridades expansivas e imaginativas do cristal Baschet, um instrumento de vibrações particulares, do qual emerge um universo experimental e onírico feito de ressonâncias, sombras e horizontes sempre abertos.
O deserto surge aqui menos como geografia do que como estado de espírito, espaço de espera, disponibilidade e possibilidade. Nada disto surpreenderá quem tem vindo a acompanhar o percurso de Pimenta enquanto artista sonoro, marcado por instalações e performances onde a escuta se transforma em experiência física.
Nos últimos tempos, porém, tornou-se também conhecido pela proximidade artística a Carminho, levando alguns a esperar a presença dessa ligação no disco. Ela existe, mas como eco distante de ideias harmónicas e de uma sensibilidade comum. A mesma lógica atravessa “New Age”.
Os objetos metálicos e ressonantes apresentados no MAAT não são apenas esculturas nem instrumentos. Habitam uma zona intermédia onde ver e ouvir tendem a coincidir. A instalação prolonga uma investigação que procura converter o som em matéria e a matéria em vibração, como se cada objeto guardasse uma música latente a ser despertada.
Talvez por isso a diversidade aparente do seu percurso revele, no fundo, uma notável coerência. Os instrumentos raros que utiliza não são excentricidades, mas meios para encontrar sons ainda não condicionados pelos hábitos da audição. E essa procura convive naturalmente com a tradição.
A colaboração com Carminho demonstra que a experimentação não exige rutura com a memória, podendo aproximar-se dela por vias oblíquas, revelando possibilidades inesperadas numa herança antiga. Entre Lisboa e Los Angeles, entre o fado e a arte sonora, entre a galeria e o palco, Pimenta constrói uma obra menos interessada em destinos do que na criação de estados de atenção. Em “Dois Desertos”, ou “New Age”, tudo permanece em aberto.