Raízes, tradições e outras inspirações: O presente é dos Bandua
A música portuguesa tem vindo, nas últimas décadas, a demonstrar que a tradição não pertence ao domínio do arquivo nem da nostalgia. É matéria viva, disponível para novas interpretações e metamorfoses. Mas existem alturas em que isso é mais visível do que outras, como nos últimos anos, através de uma constelação de artistas que, sem constituírem um movimento, partilham uma mesma intuição: a de que o passado pode ser uma força ativa de imaginação e não apenas um património a conservar. Nomes como Criatura, Emmy Curl, Ana Lua Caiano, Evaya, Pucanga, Mariana Camacho ou Bandua, entre outros, ilustram esse impulso de revisitar a herança musical portuguesa como espaço de invenção. A ideia de “futuro ancestral”, proposta por Ailton Krenak, oferece uma chave de leitura pertinente para esta sensibilidade. Não se trata de regressar ao que foi, mas de escutar aquilo que permanece latente e que continua disponível para reconfigurar o presente.
Naturalmente, nem todas as aproximações à tradição possuem a mesma densidade. Há exercícios de superfície e há trabalhos que estabelecem uma relação mais profunda com a memória, entendida não como acumulação de referências, mas como ecologia de sentido.
Em Portugal, ao longo da última década, multiplicaram-se projetos que procuraram reencontrar nas formas vernaculares, nos territórios e nas raízes um campo fértil para a reinvenção contemporânea. Na arquitetura, no design, na arte ou na moda, vários criadores souberam explorar a tensão produtiva entre o local e o global, entre o ancestral e o contemporâneo. Curiosamente, na música, essa operação parecia muitas vezes incompleta, como se faltasse uma cosmologia capaz de sustentar verdadeiramente a transformação. Foi precisamente nesse espaço que surgiu, em 2022, o álbum de estreia dos Bandua. Concebido por Bernardo D’Addario, conhecido como Tempura, e Edgar Valente, o disco foi recebido por muitos – entre eles, eu próprio - como uma revelação. Não apenas pela singularidade sonora, mas pela forma como propunha uma outra relação com o mundo.
Os Bandua inserem-se neste contexto, embora ultrapassem as suas coordenadas mais habituais. A sua música não atualiza simplesmente tradições nem transforma apenas elementos populares em matéria ornamental. Aquilo que nela emerge é uma visão do mundo em que visível e invisível coexistem. A ruralidade, a oralidade ou o imaginário pagão não são convocados como formas de conhecimento e modos de habitar a realidade. A eletrónica não surge para modernizar o passado. Surge antes como um dispositivo de amplificação, capaz de tornar vibráteis forças antigas e revelar potências ainda ativas.
Cada composição aproxima-se da lógica do ritual, convocando uma paisagem interior portuguesa frequentemente reduzida a resíduo cultural, mas que aqui reaparece como território sensível, habitado por presenças, memórias e intensidades.Por isso, o impacto do primeiro álbum dos Bandua ultrapassou claramente a dimensão musical. O disco abriu uma possibilidade. Não conduziu a um regresso ao passado, mas a uma outra ideia de futuro, construída a partir da escuta, da vibração e da capacidade de reconhecer no que é antigo uma energia ainda por cumprir. A importância do duo reside precisamente nessa deslocação.
Mais do que fundar um estilo, os Bandua ampliaram horizontes, devolvendo à música portuguesa a possibilidade de pensar o real a partir das suas camadas mais profundas.
Em “II”, o novo álbum, continuam esse percurso, mas de forma ainda mais rarefeita e expansiva. O universo sonoro torna-se mais etéreo, por vezes quase xamânico, deslocando o interior rural português para um mapa simultaneamente contemporâneo, urbano e global. As vozes oscilam entre o canto comunitário e o gesto litúrgico, sugerindo a coexistência de múltiplos mundos que o pensamento ocidental tende a apagar, em favor de uma visão única e linear da realidade.
Neles, o território surge como organismo vivo. A memória manifesta-se como presença. O paganismo rural reaparece não como curiosidade etnográfica, mas como possibilidade de relação com o mundo.
Neste contexto, o regresso às raízes assume um significado muito diferente daquele que habitualmente lhe é atribuído. Não corresponde a um movimento nostálgico nem à procura de um abrigo simbólico perante a incerteza contemporânea. Trata-se antes de escutar aquilo que nas tradições continua vivo e capaz de produzir pensamento. A memória deixa de ser arquivo para se tornar campo de forças. A tradição deixa de ser forma para se tornar energia. O território deixa de ser cenário para se afirmar como sujeito.
Ao ouvir Bandua não escutamos apenas eletrónica, voz, adufes, ecos dub ou ritmos que dialogam com o drum & bass, embora isso tudo esteja lá. O que emerge é uma espécie de pensamento da terra. A voz de Edgar Valente aproxima-se frequentemente da invocação ritual, enquanto os ritmos de Bernardo D’Addario criam uma vibração simultaneamente íntima e estranha, como se o interior português se transformasse num espaço de revelação. Os poemas, melodias e fragmentos recolhidos na Beira Baixa são tratados como matéria viva, sujeita a metamorfoses contínuas. Não são preservados como património imutável. São desmontados, transformados e reanimados.
Talvez seja precisamente aí que reside a singularidade dos Bandua. Não propõem uma fuga para o exótico nem uma idealização romântica do rural. Sugerem a possibilidade de imaginar o real a partir de outras ontologias, outras sensibilidades e utras formas de relação com o que vive e permanece. Não oferecem um regresso às raízes. Propõem uma reabertura ao mundo. E nessa cosmogonia da terra, onde tradição e futuro deixam de ser opostos, a música recupera uma das suas capacidades mais raras: a de pensar, convocar e transformar.
*O álbum “II” saiu na sexta-feira, 2 de Outubro. A estreia ao vivo é a 24 e 25 de Outubro nos Jardins Bombarda (Sala Valentim de Barros)