Morreu um pioneiro: Juan Atkins, uma vida dedicada ao tecno


 

Aos 18 anos, nos subúrbios de Detroit, EUA, concebeu a música que os europeus mais dançaram nas últimas décadas. Em 2003, tinha então 46 anos, desafiei-o  a definir a música tecno: “tecnologia, ritmo, funk, Detroit”, respondeu então,  antes de uma palestra sobre a matéria em Lisboa. Morreu este domingo aos 64 anos.

 

O ritmo é aquilo que ordena os dias, cria rotinas, estrutura a vida. Nesse sentido, é o que nos salva. Quando está presente, ordem. Quando não está, caos. Uma vez pediram a Louis Armstrong uma definição universal para jazz: “quem pergunta o que é, nunca o saberá”, respondeu. De uma outra vez, colocaram a mesma questão a George Clinton, sobre o funk: “quanto mais pensar nisso, maior dificuldade terá em perceber a emoção do funk”, foi a resposta.”

 

Á minha frente está o pioneiro do tecno, Juan Atkins, por isso parece natural perguntar-lhe, afinal, o que é o tecno? “Tecnologia, ritmo, funk, Detroit”, foram as suas palavras, mas logo a seguir disse, “mas não se explica, sente-se.”

 

Pioneiros da música tecno, mas podiam ser do rock, blues, folk, fado ou kuduro. Todos dizem que não há nada para contar, todos têm a sua história para contar. Independentemente dos géneros, as narrativas acerca das origens falam sempre de novas tecnologias, de conflitos geracionais, da crispação das classes dominantes e da forma como puseram em causa princípios preponderantes.

 

A música tecno nasceu em Detroit. No final dos anos 70 e princípio dos 80 era uma cidade deprimida, ainda marcada pelos distúrbios raciais de 1967 e pela crise automobilística, que outrora fora a alavanca do desenvolvimento. Os anos de prosperidade económica, nos anos 60, haviam sido reflectidos na música da editora Motown de Marvin Gaye e Stevie Wonder. Nos anos 70, o rock furioso dos Stooges de Iggy Pop ou o funk dos Parliament e Funkadelic indiciavam agitação. Era uma cidade industrial esvaziada do seu centro, rodeada por subúrbios habitacionais.

 

Foi em Belleville, pequena cidade a 30km de Detroit, que Juan Atkins cresceu. Ele que, aos 16 anos, ao lado dos amigos Derrick May e Kevin Saunderson, definiu os princípios basilares do tecno.

 

“Apesar de tudo, havia uma certa calma racial nessa época”, recorda. “Vivíamos numa zona decente. Não pertencíamos a famílias abastadas, mas havia um relativo bem-estar material.”

Atkins tocava baixo e bateria, mas foi quando ouviu o som de um sintetizador que os seus horizontes se ampliaram. Hoje quando a maior parte da música é electrónica pode parecer anacrónico, mas no final dos anos 70 era uma descoberta.

 

“Era como se Ovnis estivessem a aterrar sobre o vinil”, recorda. O disco chamava-se “Flashlight” e pertencia a um dos grupos funk do excêntrico George Clinton, os Parliament. “75% da música era electrónica. O baixo era electrónico e a maioria dos instrumentos sintetizados.”

 

Depois do funk, descobriu a electrónica dos Kraftwerk, a new wave dos B-52’s ou o “disco” de Giorgio Moroder. Estávamos no princípio dos anos 80 e começava a compor padrões rítmicos com uma caixas de ritmos primitiva. O seu interesse pela música levou-o a ingressar num curso de gravação onde conheceu o músico Richard Davies, com quem partilhava o interesse pelas electrónicas e pela ficção científica. Haveria de ser de um livro de Alvin Toffler, “A Terceira Vaga”, que retirariam o nome para um projecto: Cybotron. Quando editaram o single “Alleys of your mind” e posteriormente o álbum “Enter” não havia nada parecido.

 

Começavam a ser lançadas as bases daquilo que viria a ficar conhecido como tecno, música repetitiva, sintética, tecnológica, síntese visionária de funk e electrónicas. Os Cybotron dissolveram-se em 1985 e Atkins resolveu criar uma editora, a Metroplex, e um novo projecto musical, Model 500. O primeiro lançamento, “No UFO’s”, tornou-se emblemático do tecno de Detroit, inaugurando uma nova era de abstracção electrónica, com texturas ambientais dispostas sobre complexos microritmos.

 

Logo de seguida, influenciados por Atkins, entraram em acção May e Saunderson, seguidos nos anos imediatos por uma infinidade de músicos e projectos de Detroit, como Carl Craig, Jeff Mills ou Underground Resistantance. Apesar da originalidade da sua proposta, não foram reconhecidos nos EUA. “Hoje é um pouco diferente”, afirma Aktins, “quem quer compreender mesmo a história já percebeu que a música tecno nasceu em Detroit e não numa cidade europeia como se pensava nos EUA durante anos.”

 

Na realidade, foi na Europa, que os pioneiros da música tecno acabaram por ser reconhecidos. Em 1988 foi editada a compilação “Techno! The New Dance Sound Of Detroit” que deu a conhecer o género. A extinta revista inglesa “The Face” destacou-os. Alguns promotores contrataram-nos para realizarem sessões DJ em Inglaterra e a sua música começou a fazer parte da eclética banda-sonora que originou a explosão acid-house em 1998.

 

“Quando as portas se abriram deixei-me ir, não tentei analisar o que se passava”, conta Atkins, recordando a primeira vez que se apresentou numa festa em Inglaterra, “foi um choque perceber que a minha música, feita num estúdio rudimentar e segregada pela indústria da música americana, podia agradar àquelas 5000 mil pessoas brancas que dançavam loucamente à minha frente.”

 

No princípio dos anos 90, com a propagação global, a música tecno parecia um negócio com boas perspectivas, mas Atkins e parceiros nunca viram a cor do dinheiro. Com os pioneiros, é muitas vezes assim. São ultrapassados pelos acontecimentos. “Às tantas toda a gente me falava de ‘raves’ e drogas de que nunca ouvira falar e interrogava-me: o que é isto? O que se passou? Quando comecei isto era apenas a música. Apenas a música.”

 

Todas as músicas electrónicas de dança que se seguiram, do drum & bass às formas minimalistas do mais atraente tecno contemporâneo (de Ricardo Villalobos a Matthew Dear) devem alguma coisa a Detroit. “Sei que estava a criar um novo som, mas não tinha ideia da influência que iria ter, nem das ramificações que iria criar. Alguma dessa música ‘minimal’ é interessante, outra nem por isso, mas vai dar tudo a Detroit”, afirma Atkins.

 

“Trata-se de atribuir emoção à electrónica, fazer com que a vida entre nela, porque foi a vida que deu ritmo ao tecno. Não basta criar programações. É necessário emergirmos na música.”

 

Na actualidade, continua a lançar discos – “estou a preparar um novo álbum de Model 500”, revela – e a actuar um pouco por todo o mundo, ao vivo e na condição de DJ. É nesse papel que estará hoje no MusicBox, para uma sessão eclética, depois de há uns anos também ter estado na Locomia, Algarve. “Não tenho paciência para ouvir o mesmo tipo de música a noite toda”, diz.

Durante anos a música tecno foi alvo de mal entendidos.

 

A cultura rock nunca a percebeu e até os políticos, através do governo britânico, criaram uma lei contra ela. É estranho saber isso, ouvindo Juan Atkins: “sempre olhei para o tecno como um sonho. Algo que me podia transportar da monotonia desoladora de Detroit para um qualquer outro lugar.” O sonho foi cumprido.


Texto publicado no Público, Março 2003

 


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