O corpo como território instável nas imagens de Ska Batista
“Fred” é nome curto para um livro que se abre como espaço longo.
A obra de Ska Batista, artista visual brasileira radicada em Lisboa, chega pela Ghost — editora fundada pela fotógrafa Patrícia Almeida (1970 - 2017) e pelo editor David‑Alexandre Guéniot, que tem continuado fiel à publicação como gesto de resistência ao excesso, à velocidade e à transparência total.
A Ghost publica ao seu ritmo, com atenção, numa ética do intervalo. Talvez por isso o encontro com Ska pareça inevitável: ambos recusam a lógica da eficácia e confiam no processo, no erro, no desvio, no que permanece aberto.
A prática de Ska atravessa fotografia, vídeo, instalação e iluminação cénica, não como acumulação de técnicas, mas como tentativa de tocar um mesmo problema: a forma como luz, corpo e imagem se constroem mutuamente.
Ao definir‑se como “acumuladora de imagens e iluminadora”, afirma um método íntimo: acumular não é colecionar, é deixar as imagens pousarem, contaminarem‑se.
Iluminar não é apenas tornar visível, é criar condições para que algo aconteça — ou permaneça no limiar do acontecimento.
Em “Fred”, o corpo surge como território instável. Não há poses nem afirmações categóricas, apenas gestos, rastos, presenças insinuadas e ausências que pesam. O corpo é processo, matéria em transformação.
Procuram-se zonas de suspensão, de quase‑ver, luminosidades que revelam menos do que escondem.
É nesse quase que o livro se instala. Lido como diário visual noturno, fragmentário e queer, “Fred” recusa narrativa linear. Há encontros, vulnerabilidades, resistências. O corpo — desejante, frágil, insistente — é o eixo móvel.
A cada página, algo se desloca: a luz, o olhar, a própria ideia de identidade. Nada se estabiliza; tudo permanece em trânsito, num contínuo devir.
Mesmo quando surge texto, não explica: acompanha o movimento, prolonga a respiração das imagens. O livro oferece intimidade em processo, experimentação sem conclusão.
A pequena nota final, na contracapa, condensa essa lógica de reinício perpétuo, onde sujeito, cidade e imagem recomeçam juntos:
“à noite, deitado, fred olha para o teto
amanhã tudo recomeça
a cidade também
as imagens também
fred também.”