O futuro da cultura da música já está a acontecer

Foi em Côa. Cerca de uma centena de profissionais europeus ligados à música — e também às artes da imagem e à investigação académica — para pensar o futuro do sector. Um futuro que já está a acontecer. Porque a música não vive isolada: respira o mundo e é atravessada por ele.

Foi esse o espírito do Act In Synch, um encontro que aliou conferências, debates, oficinas e residências artísticas para refletir sobre temas como o impacto da tecnologia e da IA, a relação entre música e audiovisual, ou o papel da cultura nas transformações sociais e ambientais.

Tal como outras áreas, a música enfrenta dilemas — económicos, tecnológicos, sociais — que atingem tanto grandes estruturas como artistas independentes. O modelo económico atual não consegue sustentar a maioria: o streaming paga valores irrisórios, e até os concertos, que durante anos foram tábua de salvação, têm vindo a tornar-se menos rentáveis.

A pressão das redes sociais, a economia da atenção e a lógica algorítmica favorece tendências rápidas e descartáveis, penalizando processos mais experimentais ou identidades musicais que não cabem nos moldes dominantes. O resultado é conhecido: desgaste emocional, ansiedade, sobrecarga de funções que antes seriam distribuídas por equipas inteiras.

Os algoritmos substituíram grande parte da curadoria humana e, com isso, perdeu‑se diversidade e sobra homogeneidade. Paradoxo: nunca houve tanta música disponível, em todo o lado, a toda a hora — e, ainda assim, nunca soou tudo tão parecido. A isto somam‑se os desafios trazidos pela IA: questões de autoria, consentimento, compensação e integridade.

Não há consenso sobre se estamos melhor ou pior do que há 10, 20 ou 30 anos. Há ganhos e perdas. A produção está mais democratizada, mas há mais exploração. A visibilidade parece mais acessível, mas continua a exigir estratégia e recursos. O que parece claro é que a precariedade aumentou, sobretudo para quem não tem uma base de público sólida. Daí repensar modelos de pagamento, garantir transparência, promover diversidade cultural e criar novas formas de sustentabilidade para quem cria.

Uma coisa é evidente: não existe uma crise da música enquanto universo criativo. O que existe é um conjunto de tensões entre economia, tecnologia, modos de escuta e modelos de trabalho. As possibilidades não são lineares; são híbridas, contraditórias. O streaming estabilizou um sistema eficiente para a indústria, mas devastador para grande parte dos artistas.

Uma saída possível passa por recentrar o valor na relação direta entre criadores e ouvintes, ou por repolitizar a tecnologia — porque, se é verdade que ela democratizou a produção, não democratizou a remuneração.

A tecnologia é um dos campos onde se disputa o futuro. Mas não é o único. O conflito central está no desfasamento entre a velocidade das mudanças e a capacidade humana de as compreender e as integrar. A IA é disso exemplo: não é apenas uma ferramenta, é uma espécie de mantra cultural. Reconhece-se o seu potencial e os seus riscos, mas ninguém sabe ao certo até onde pode ir — tal como aconteceu com a energia nuclear.

Uma das respostas mais visíveis a este momento tem sido o regresso às cenas locais: festivais pequenos, curadorias com identidade, espaços autogeridos, comunidades de escuta. Em suma: curadoria como resistência ao algoritmo, e a necessidade de devolver contexto à experiência musical, porque a desordem também é de sentido.

Há muitas frentes de reinvenção. O futuro, tudo indica, será uma ecologia de modelos coexistentes — alguns industriais, outros quase artesanais — onde a diversidade de formas de criar e de ouvir possa respirar.


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