Sereias: se não desconfortar, algo já morreu
Sereias são vertigem, risco, o disforme que se torna belo quando sangra em público. São a esquerda que já não aguenta a extrema-direita fascista, nem a esquerda domesticada, ensaiada para parecer comprometida aos olhos dos pares. Eles não posam, atacam, iluminados pelas estrelas.
Não precisam do bom gosto, do imaculado. Querem o perigo. A linha ténue que separa razão e loucura. Há quatro anos, num álbum homónimo, já dançavam num campo minado onde cada acorde, cada palavra, nos podia rebentar na cara. Agora regressam mais sequiosos com “A Odisseia de Carlos Bizarro”. Uma narrativa que se desfaz, que se contorce, que se arrasta pelos cotovelos enquanto tenta não sucumbir. Um objeto sonoro que parece prestes a ruir – e é aí que reside a sua força brutal.
Trabalham a dissonância como quem amassa barro com raiva. Há guitarras que recusam resolução. Ritmos que tropeçam em corpos. E depois aquela voz, de António Pedro Ribeiro, que vem de dentro de um túnel emocional onde ninguém entra, a não ser ele. Há camadas que se chocam, que se empurram, que se odeiam e se amam ao mesmo tempo. Nada é seguro.
Tudo é clarão. A TV, a internet, o capitalismo, vigia-os, e eles continuam. Tudo pode correr mal – e é por isso que tudo vibra. Há faixas que parecem improvisos à beira do colapso. Outras são rituais de purificação quando já não existe nada para acreditar. A narrativa não é linear porque a vida – a de todos os que ainda sentem alguma coisa – também não o é. É um corpo a viver num lugar onde uma minoria vai mastigando uma maioria assustada. É poesia cortante, sarcástica, lucidamente ferida, que não quer ser bonita – quer ser verdadeira.
E a verdade, quando é verdade, rasga. Música que não tenta ser relevante e essas coisas. Se não desconfortar, algo está morto. Podia fazer uma reflexão como manda o figurino, falar de referências – pós-punk, jazz, spoken-word político, ruído ritual – e de possíveis ascendências (Slint, Swans, Fall, Pere Ubu, Gilla Band, Pop Group, Mão Morta), mas tudo parece desajustado. Este disco encosta-nos à parede e grita-nos: “Se queres conforto, vai para a puta que te pariu!”
“Somos macacos que se vigiam uns aos outros”, ouve-se em “Macacos”.