Rosalía e a instrumentalização da fé
Já cansa a narrativa de que Rosalía teria inventado a roda ao lançar um álbum pop com referências religiosas e ecos da música clássica. A histeria é tanta que até o simples facto de atuar em Portugal dias depois da Páscoa (8 e 9 de Abril) serve para alimentar discursos exaltados sobre fé e renascimento.
Não é muito diferente do que acontece com Nick Cave, cujos concertos são invariavelmente descritos preguiçosamente como “missas”, “exorcismos”, “orações”. Ele próprio tem repetido que o que o move é a experiência humana do sagrado, o confronto com o mistério, não qualquer adesão a um deus institucional. Nada de novo: Cave sempre habitou esse território liminar entre espiritualidade e arte, sem se submeter a dogmas.
Mas voltemos a Rosalía. Acompanho o seu percurso desde o início e reconheço o mérito do que faz, sem cair em absolutismos. O último álbum não é trivial: traduz para a era do streaming — onde identidade é performance e reinvenção — gestos históricos com uma gramática estética própria do digital, do pós-folclore e da cultura visual contemporânea.
O problema é que isso parece insuficiente para quem vive de superlativos vazios. A religião sempre foi um reservatório simbólico da cultura ocidental, e a pop bebe dele desde sempre. A música clássica também sempre se infiltrou na pop, e vice-versa. Isso diminui Rosalía? De forma alguma. O que soa fictício é a tentativa de a apresentar como uma espécie de enviada divina, como se tivesse descido dos céus para iluminar o mundo.
A história da cultura popular está cheia de artistas que cruzaram pop, religião e erudito. A diferença está no modo como o fazem e o ecossistema mediático em que surgem. Madonna erotizou a iconografia católica até à exaustão. Prince fundiu erotismo e espiritualidade cristã numa só respiração. Björk mergulhou no misticismo, em coros clássicos, e em liturgias, e mais recentemente, FKA Twigs ou Arca, exploram algo semelhante.
E isso no mercado de massas. Se descermos um pouco, encontramos um submundo inteiro dedicado a essa fusão: Dead Can Dance, Current 93, Diamanda Galás — todos cruzando liturgia, misticismo, música antiga e performance ritual. E poderíamos continuar: Julia Holter, Joanna Newsom, Anohni, Coil, Swans, o sagrado como performance, ou Scott Walker, que mesclava ópera, ruído, liturgia e politica. E tantos outros, até Arvo Pärt, que não é pop, mas influenciou mais de metade da pop etérea contemporânea.
Há mais de uma década, Alex Ross, crítico de clássica, já antecipava que a ópera e a clássica poderiam tornar-se um novo território de consumo para públicos habituados a Radiohead ou Björk. Rosalía insere-se precisamente nesse movimento. O seu mérito está em trazer para o centro da pop global algo que antes vivia na orla: estética sacra, voz como instrumento ritual, coreografia como liturgia. Ela não inaugura a mistura — amplifica-a.
Há, no entanto, um lado menos conseguido: a consciência excessiva da própria construção. E isso abre espaço para leituras instrumentais. De repente, há quem diga que, graças a ela, a religião está de volta. Meios conservadores celebram a devoção. E meios supostamente progressistas exaltam a sua fé, alinhando-se com narrativas, não comprovadas, que insistem que a juventude se tornou conservadora e inclinada à direita.
Ou seja, há setores socias ou políticos, que à boleia de “Lux”, confirmam as suas próprias narrativas culturais, atraídos pela iconografia cristã, a estética sacralizada, a linguagem de devoção e a ideia de retorno ao sagrado.
Figuras da Igreja reforçam essa leitura: o bispo espanhol Xabier Gomez fala de “travessia espiritual”, o cardeal Tolentino elogia a capacidade de captar a necessidade contemporânea de vida interior. A própria Rosalía descreve um mundo caótico que empurra para dentro, mas sem explicitar as origens dessa distopia, o que cria um vazio que cada um preenche como lhe convém.
Esse impulso interior, como forma de lidar com um universo exterior em grande convulsão, pode levar a muitos lugares: igrejas católicas, evangélicas, terapias alternativas, livros de autoajuda. E, no meio disso, perde-se a pergunta essencial, para além da excessiva concentração nos efeitos ou nas consequências: de onde vem a tal desordem e falta de rumo? E se a causa estiver num sistema socioeconómico em colapso, que produz guerras, desigualdades, injustiças sociais?
É essa a crítica que muitos dirigem a Rosalía: como se posiciona perante a apropriação que é feita do seu labor? Como tantas celebridades antes dela (de Amália a Bad Bunny), no momento do sucesso, é cortejada pelos poderes dominantes, tentando mover-se entre eles com ambiguidade.
“Lux” trabalha a espiritualidade como experiência estética e íntima, não como doutrina. Não é um manifesto. É um dispositivo artístico. Uma estratégia que passa pela exploração sensorial e simbólica. Mas nada disso tem impedido que setores integristas se tenham apropriado da sua estética para resgatar valores tradicionais e revalorizar o cristianismo cultural, mesmo que ela não esteja alinhada com esses discursos.
Ela diz-se apolítica, mas isso não a protege da instrumentalização conservadora que é realizada. Bem pelo contrário, provavelmente. Quando ela se remete ao silêncio, outros fabricam narrativas que são tanto culturais como políticas, centradas no indivíduo atomizado, e numa lógica que transforma problemas sociais em falhas pessoais a serem resolvidas unicamente por iluminação espiritual, e não por ação e construção coletiva.