Direita brutamontes, Esquerda reactiva e falta de imaginação política
Foto: VB
Por norma é depois de eleições, que a esquerda gosta de fazer terapia. De curta duração. Apenas por alguns dias. Depois existem alguns ciclos de vai-e-vem. Mesmo agora, em Portugal, estamos num desses períodos.
Uns dizem que o problema é de comunicação, outros de estratégia. É a moderação que conduzirá à vitória, garantem uns, depois de mais uma derrota. Outros clamam por aprofundamento, porque só assim se consegue mobilização. É da agenda fragmentada, da aposta em demasiadas causas, ouve-se há muito. Há perda de ligação com o sentimento popular. Ao lado garante-se que o problema são as notícias falsas, acordando para a propaganda que sempre existiu, agora mais expandida, é verdade.
No apontar de sintomas existe sempre alguém que acerta. O pior é reconstruir uma narrativa concreta, reaprender a arregimentar, ensaiar novas formas de organização e integrar causas numa visão integrada de justiça social. Tenho andado distante do pensamento político. Por isto mesmo. Não por falta de interesse, mas saturação. Depois de mais de duas décadas a ler gente como Zizek, Fisher, Badiou ou Berardi — e a tentar dialogar com as suas ideias — estou atulhado de diagnósticos e indícios. Para já uma só certeza: desde a crise financeira de 2008 que ficou claro que o modelo neoliberal ou o capitalismo vão putrificando por dentro, mesmo que se consiga disfarçar vitalidade através de várias mutações.
Hoje o cenário é transparente. Nas últimas duas décadas, a direita — com a ajuda da esquerda que, ao chegar ao poder, se esquece de o ser — conseguiu afirmar ideias de liberdade e felicidade ao mercado. A partir dessa fusão, e com o apoio das tecnologias, moldou o quotidiano. Pode-se denunciar a falsidade óbvia da coisa – é ver a repressão contra imigrantes, mulheres, pobres, os mais frágeis. Mas pergunte-se à maioria o que entende como bem‑estar? Consumir, competir, vencer. É esse o horizonte dominante, salvo para uma esquerda austera que, com generosidade, acredita ainda em revoluções, mas cujo tempo parece vencido.
Vivemos num regime em que a lógica neoliberal se infiltrou em tudo. Capturou o quotidiano. Cultura, artes, jornalismo, universidade, ciência — que antes funcionavam como contrapeso crítico — também foram absorvidos. Até o amor, a amizade, as relações humanas afetivas, parecem encarcerados na mercantilização. E o que faz a esquerda quando governa? Limita‑se a regular o que existe, moraliza comportamentos, impõe limites.
Falta-lhe imaginação para propor outros mundos, outras formas de vida. Fica presa a um papel supervisor ou proibicionista. Não sai de uma posição reativa, defensiva e automática, destinada, mais cedo ou mais tarde, à derrota. Limita-se ao alarme moral, à mobilização pontual, ao apelo no voto em si porque, grita, vêm aí os lobos maus. E vêm. Estão em todo o lado.
Para quem está nos vintes, sem memória histórica e com a precariedade como condição permanente, a esquerda tornou‑se paternalista, aborrecida, punitiva. Eu sei, são perigosas as generalizações, mas digam também isso a alguma esquerda preguiçosa que troca lutas políticas por cancelamentos – até se cancelarem uns aos outros, presume-se, num movimento autofágico – não conseguindo gerar imagens próprias de emancipação.
A direita liberal‑autoritária percebeu o vazio e ocupou-o. Tornou-se a gestora do descontentamento que antes pertencia à esquerda, transformando, paradoxalmente, as vítimas das suas políticas em apoiantes. Não tem respostas para os impasses do presente — desigualdade, habitação, crise ambiental, erosão democrática — e ainda lhe acrescenta culto da força, desprezo por direitos, brutalidade.
Hoje diz às claras que só o dinheiro importa. As regras são descartáveis. O Estado é ultrapassado. Territórios e populações são sacrificadas sem justificação. As classes médias do conhecimento são vistas como obstáculo. A época dos consensos e do diálogo já foi. O objetivo é enfraquecer serviços públicos e descartar quem não serve. Tudo tem de ser mercadoria. O que não pode ser formatado como tal é excluído.
Não surpreende que, entre os mais novos, sem memórias repressoras; os mais desprotegidos, entregues a si próprios; e os que romantizam um passado que nunca existiu da forma que concebem, a aspiração seja uma vida alinhada com o mercado. Parece não existir outra alternativa.
No século XX, a esquerda teve iniciativa: fosse no comunismo, no socialismo ou na contracultura. Sim, nem todas as experiências foram bem-sucedidas – como as atuais da direita também não o são – mas havia essa sensação de se participar num trânsito de transformação do mundo. Hoje não se mobiliza ninguém apenas com medidas reativas. É preciso mais: horizonte, motivação concreta. Não falo de evocar “esperança” e “empatia”, e outros palavras giríssimas, mas que se desligadas da realidade, só geram mais frustração, mas de novos sentidos, outro mundo sensível.
Seria preciso recuperar essa iniciativa. Não para repetir modelos, mas para reinventar fragmentos úteis dessas experiências e propor novos imaginários, suficientemente fortes para obrigar a direita a dizer “isso é impossível!” É nesse território — o do impossível que se torna possível — que a esquerda deveria situar-se. Ou como diz Paul B. Preciado, as utopias são mais necessárias do que nunca, porque são totalmente possíveis.
Durante a pandemia, ou no apagão do ano passado, apesar das muitas e diversas experiências, tivemos alguns clarões disso. Momentos em que os fins da realidade capitalista se diluíram. Em que surgiram ao de leve outros princípios orientadores. Onde a pressão de produzir e competir desapareceu, dando lugar a gestos de solidariedade, amizade, partilha. Como se o tempo se abrisse e revelasse outras formas de existir.
A questão é: que mundo sensível propõe a esquerda num momento em que a vida moldada pelo mercado se degrada e alimenta a guerra, a desigualdade, a exaustão mental, a impotência, a destruição ambiental?
Vivemos no niilismo que devora tudo — e agora ameaça a própria vida na Terra. Como travá-lo? Não há respostas de bolso. Mas há movimentos de cidadãos, em muitos lugares, que vão conseguindo impor limites ao capital. Resistências que reivindicam outras formas de legitimidade. Não através da política clássica, dos partidos, do direito, das leis ou da mera reação moral.
Estamos todos presos no corpo capitalista — e à obrigação de pagar a renda no fim do mês — mas outros padrões vão sendo ensaiados, na relação com a terra, a autonomia reprodutiva, o saber ecológico, a reconstrução do bem comum, redes de cuidado e economias cooperativas.
Sempre que se ouve, por exemplo, Ailton Krenak, percebe-se que temos a aprender sobre resistência com os povos da Amazónia – alvo de violências ao longo da história, mas mantendo-se inteiros. O mesmo com movimentos contra a degradação ambiental. O que os move é radical – uma nova forma de viver – por mais cinismos que existam, como em todos os movimentos.
Era, talvez, preciso captar essa energia, criar ligação, estimular uma nova imaginação que cuide do planeta. Isso exige uma transformação profunda de valores, incorporada em hábitos e modos de vida. Eu sei, palavras bonitas. Não é fácil. O ponto é que não vamos lá por obrigação, moralismo ou colocando toda a gente de castigo. Essa possibilidade tem de nascer de dentro, de uma construção palpável, diária, de um outro vislumbre.
Podemos — e devemos — gritar contra o capitalismo desenfreado e a brutalidade que nos rodeia. Mas transformar a vida, mobilizar o desejo, é outra coisa. Não basta gritar que temos a razão do nosso lado e que estamos rodeados de “fake news” ou seja lá o que for. É preciso criar práticas que introduzam novas realidades no quotidiano. A verdade não se alcança apenas com discursos ou pelo conhecimento, mas pela experiência vivida, pela ligação aos outros e pela relação com o cosmos.
Fantasia? A grande, e esperemos que não fatal ilusão, é achar que o caminho que estamos a seguir é o mais correto, contra todas as evidências. Gostava de acabar com uma daquelas frases que ficam sempre bem no fim e arredondam a coisa. Tipo, a esquerda não está perdida, está apenas em mutação, como tantas vezes aconteceu ao longo da história. Mas não acredito totalmente nisso, apesar de saber que, por vezes, a desorientação é só o desconforto de uma mudança profunda antes de ganhar forma.