O Intemporal Regresso a Durutti Column

Foi muito provavelmente o disco que mais ouvi em 2025: “LC” de Durutti Column, lançado em 1981.

O tempo coletivo presente parece reclamar gestos largos, opulentos ou afirmativos, e aí estão alguns dos álbuns mais gabados do ano (Rosalía, Bad Bunny, Oklou, Geese, Pulp) para o confirmar.

Sem renegar alguns desses acenos, sinto que, pessoalmente, interessou-me outra coisa. O meu tempo particular optou por recolhimento, contemplação e histórias que funcionam como diários emocionais de ressonância universal (Blood Orange, Dijon, Nourished By Time, Aya).

Curiosamente uma das canções que mais ouvi este ano (a magnífica “The field” de Dev Hynes, ou seja, Blood Orange) é construída a partir de um fragmento da guitarra de Vini Reilly, forma de o fazer regressar à atualidade, ele que depois de dois derrames cerebrais é pouco provável que volte a tocar.

Mas a minha insistência em “LC” é anterior. Não sei como começou. Talvez como principiam muitas destas coisas, pelo menos comigo, um dia abre-se a janela, está sol, apetece ouvir música, coloca-se a tocar qualquer coisa meio aleatória que estava à mão e aquilo começa a ganhar sentido, a embrenhar-se em nós, no que fomos, somos e queremos ainda ser, e fica-nos colado, repetindo-se depois muitas vezes.

Não tenho uma relação idealizada com a música de Durutti Column. Vi várias vezes ao vivo, Vini Reilly, curvado na guitarra, Bruce Mitcheell, expansivo na bateria, umas vezes sendo muito bons, outras nem por isso, e dos discos, guardo o mesmo: obras maiores, medianas e algumas, a partir dos anos 90, mesmo falhadas.

O primeiro álbum, “The Return Of The Durutti Column” (1980), não constava dessa prateleira dourada. Mas eis que foi reeditado há semanas, em edição revista e expandida, com temas ao vivo, demos e esboços, e desde então não tenho parado de o ouvir.

Foi aí que se começou a desenhar aquele som singular, uma música ao mesmo tempo minimal, frágil e quase nada ornamentada, banda-sonora para quem cresceu em lugares onde o nada, o vazio, o não acontecer, eram a única companhia.

Há doze anos, num artigo sobre Vini Reilly, quando se soube que passava por dificuldades financeiras, falei com Miguel Esteves Cardoso, que descrevia assim a sessão de estúdio para gravar um single, mas da qual viria a resultar o álbum “Amigos de Portugal” (1983), edição Fundação Atlântica, e que seria motivo para alguns imbróglios legais.

“Ele chegou aos estúdios de Paço de Arcos e gravou um álbum inteiro numa noite mágica. Foi espantoso. Eu e o Ricardo Camacho nem queríamos acreditar. Não tinha ensaiado nada e, ali estava, música atrás de música, sem parar. Começou às 21h e às 2h da manhã tinha um álbum.”

Ao longo dos anos foram cerca de trinta álbuns. É muita música. Mas aqueles primeiros anos da década de 80 foram marcantes. Esse álbum inicial, produzido por Martin Hannett, era diferente de tudo o que se ouvia na época, com uma assinatura emocional e poética singular, com acordes límpidos, espaços vazios, melodias circulares e uma fragilidade luminosa que dialogava com o ouvinte, como se alguém nos oferecesse o seu diário íntimo, revelando um pouco do seu mundo secreto, sem palavras, com recurso a uma sonoridade instrumental, espaçosa, sem tempo.

Como tantos outros gestos criativos da sua autoria, esse álbum foi renegado por Vini Reilly. Não o satisfazia. Quarenta e cinco anos depois parece-nos inacreditável que seja verdade. Foi sempre assim. Modesto, habitando na sua redoma, com dificuldades na burocracia do existir, mas criador enorme, capaz de arte nobre e afetuosa em meia dúzia de acordes. São necessários mais assim.

 

 

 

 

 

Anterior
Anterior

Blackstar. Há dez anos saiu o último testemunho de David Bowie

Próximo
Próximo

O Que Ouvi, Vi e Li e Não Esqueci - 2025