Uma aventura inspiradora com 15 anos - Príncipe Discos

DJ Firmeza, Quinta do Mocho, 2012

Nunca mais me esqueci dessa conversa. Meio dos anos 2000, na rua do Elevador da Bica, Lisboa. Eramos quatro. O Pedro e o Nelson Gomes, programadores, curadores, agitadores de múltiplos acontecimentos culturais, na altura, ainda na ZDB, antes da aventura Filho Único, e eu e o sociólogo e artista António Contador.

Falávamos apaixonadamente sobre Lisboa. Três barreirenses e um setubalense. Eu e o António, otimistas. Os primeiros estrangeiros chegavam à cidade, querendo aqui residir, com um olhar fascinado sobre ela (por exemplo, Noah Lennox – Panda Bear – dos Animal Collective, havia-se mudado de Brooklyn para o Bairro Alto) e havia muita coisa a acontecer, como os Buraka Som Sistem, então em embrião, mas os sinais de que a afro-portugalidade era um filão muito criativo já existiam há muito, por exemplo, pela mão de DJ Marfox, em circuitos mais alternativos. Faltava o detonador.

Nelson e Pedro estavam mais renitentes. Pedro pressentia que o interesse por Lisboa era artificial. Vislumbrava potencial cultural, mas resistência em ativá-lo, sendo critico da ausência de dimensão ética de quem detinha algum capital. Sair parecia ser solução. Nova Iorque estava na mira. Ao tempo, gostava do que ali ocorria, havia conhecido Devendra Banhart, e partir parecia ser uma opção.

Não o fez. E anos depois nascia a Príncipe Discos, fruto do compromisso dos dois Filho Único (a que se juntaria depois André Ferreira e Afonso Simões) com José António Moura, timoneiro da loja de discos Flur, e Márcio Matos, artista relutante, ainda hoje o obreiro das incríveis e imediatamente identificáveis capas de discos, onde existe quase sempre um traço de aspereza, mas também de afeto, pelo meio de simbolismos e alegorias.

Esta sexta-feira vão todos juntar-se no Lux-Frágil, por ocasião do 15º aniversário, com os dois andares ocupados por veteranos e novatos afetos à editora, em nome individual, ou no seio de coletivos, numa constelação onde estão DJ Marfox, Nervoso, DJ Firmeza, Nigga Fox, DJ Narciso, Nuno Beats, Tia Maria ou Xexa.

A uni-los, ontem, como hoje, essa ideia de dar a conhecer música que brotava essencialmente – mas não só – na heterogénea grande Lisboa, numa altura em que sonoridades como o kuduro, funaná, afro-house ou tarraxo, já haviam passado de ouvido em ouvido, mas longe do conhecimento alargado.

O cenário estava criado, até porque se o interesse nacional sobre o fenómeno era residual, fora de portas havia contexto para a afirmação de novos sons que escapavam às lógicas mercantis anglo-saxónicas. Por estranho que possa parecer, foi nessa altura que se abriu a lógica que permite que hoje existam fenómenos globais como Rosalía ou Bad Bunny.

Numa primeira apresentação da editora para o jornal diário Público, onde escrevia, dizia-me o Pedro, que se havia confrontado com imensa gente com talento, que operava nos seus quartos, com portáteis Magalhães, uma das heranças do governo Sócrates, trabalhando várias linguagens afro-portuguesas de uma forma moderna, eletrónica e independente. A ideia era a Príncipe Discos servir de veiculo de divulgação dessa música, com respeito, sem a desvirtuar, como tantas vezes acontece em situações semelhantes.

DJ Marfox, ou seja, Marlon Silva, teve um papel central nessa operação. Era respeitado e pioneiro com o coletivo DJs Di Guetto. Foi através dele que outras portas se foram abrindo e surgindo DJ Firmeza, Nigga Fox, Nídia, DJ Maboku, Puto Tito, Blacksea Não Maya e tantos outros. Depois vieram as noites Príncipe no MusicBox, coração de Lisboa, e a coisa ganhou novo fôlego. Era real. Havia calor, reciprocidade, frenesim. Deixou de ser virtual.

Em 2012 fui pela primeira vez à Quinta do Mocho, perto de Sacavém, onde residiam alguns destes criadores. Sentia-se orgulho e uma herança geracional, com DJ Marfox, figura respeitada, a amparar figuras como DJ Firmeza, então apenas com 18 anos, um talento em bruto que ganhou asas e voou, literalmente, do Mocho, para o resto da Europa, EUA, Japão, o mundo. Variações desejou ir de Braga a Nova Iorque. Amália, Madredeus, Mariza ou Ana Moura levaram noções de fado mundo fora. Mas essas eram, apesar de tudo, ideias de Portugal mais consensuais.

Os Buraka irem da Amadora pelo mundo fora, ou Marfox e Firmeza, da Quinta do Mocho até ao MoMA de Nova Iorque, e daí para todos os continentes e páginas das principais publicações globais de música e cultura, colaborando com nomes internacionais firmados, foram apesar de tudo viagens mais surpreendentes. Marfox, por exemplo, filho de pai e mãe de São Tomé, nunca tinha ido a África.

Em 2014 dizia-me. “É difícil passar tudo o que me tem acontecido aos meus pais e eles compreenderem. Até eu me surpreendo. Ser o primeiro português a sair na Rolling Stone americana, por exemplo. Ou as viagens. Conhecer outros países, pessoas, culturas. Tentar perceber a dinâmica das coisas, em Londres, Paris ou Nova Iorque, e comparar com Lisboa. Tem sido incrível aprofundar como é que as pessoas se organizam, o que pensam e que ideia têm do meu país, a partir também da minha música.”

Uma história fácil? Não romantizemos. De repente, os territórios de onde brotou aquela música deixaram de ser estigmatizados e começaram a ser alvo de políticas públicas inclusivas? Claro que não. Mas quem quis percebeu que em alguns dos chamados “bairros problemáticos” da Lisboa metropolitana, para além da construção do medo e da ideia de ameaça, circulam afetos, a inventividade nasce da comunidade e faz-se arte singular.

Também ninguém enriqueceu. Nem editora, nem artistas. Mas a editora continua com uma atividade regular e entre os artistas, alguns ficaram pelo caminho como é normal, mas para outros o sonho está a ser cumprindo, vivendo da sua arte. Se nos primeiros anos, a maior parte eram afrodescendentes de segundas e terceiras gerações oriundos da periferia da cidade de Lisboa, essa realidade foi-se diversificando. Hoje muitos dos agentes e produtores que rodeiam a estrutura editorial vivem em vários países da Europa.

Como tantas outras histórias com contornos semelhantes, foi-lhes mais fácil serem credibilizados pela sua arte na Europa do que em Portugal. Não foi essa também a história de Cesária Évora, Bonga, Buraka, Dino, Mayra e tantos outros? Não é difícil de perceber. Internacionalmente as condicionantes socioculturais que aqui criam resistências são, apesar de tudo, atenuadas. Aqui o desencontro e as feridas em aberto da história pós-colonial pesam e de que maneira. Em Tóquio ou Paris é apenas a música, o ritmo, a fisicalidade, a fruição, que são abraçadas de forma espontânea.

Hoje Pedro Gomes já não faz parte da editora, mas naquela noite foi o mais certeiro. A cidade gentrificou-se, como de alguma forma previra. Tudo está subordinado ao capital, com exceções, como a Príncipe. A ética reivindicada por ele, por contradições que existam, ainda se sente numa história coletiva, que envolve muita gente, mas que, para mim, associo àquela noite, quando o Pedro acabou por não rumar a Nova Iorque, para contribuir que outros que nunca tinham saído do perímetro do seu bairro, chegassem lá, apresentando a sua música, criada no quarto, a multidões em festa.

Texto originalmente publicado na A Mensagem de Lisboa, a 6 de Março 2026

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