A pornográfica coreografia do poder global

Leio a enxurrada de noticias sobre os Ficheiros Epstein e só me vem à cabeça outro escândalo globalos Panama Papers – já esquecido. Eu sei, este vem intensificado com pedofilia, tráfico de menores, e sabe-se lá que mais, o que tanto fixa atenções, como distrai, mas o que mais impressiona é a dança pornográfica de poder, favores, tráfico, dinheiro, controlo, sexo. E tudo isto sempre numa teia ambígua.

Escândalos globais que servem para termos consciência do submundo de engenharia financeira que nos rodeia, e das redes de poder que as manobram, mas que não são propriamente surpreendentes. A única novidade é que agora já não podemos dizer que desconfiamos. Agora sabemos. Tal como acontecia com os Panama Papers os nomes agora revelados não escolhem nacionalidade, atividade, ideologia ou credo.

É, passe a ironia, um caldeirão multicultural, onde a única coisa que gera união é: dinheiro, poder, desejo. Ter mais, sempre mais, insaciavelmente mais, seja dinheiro, poder ou sexo. E tal como nos Panama, tudo caminha para desembocar apenas na dimensão ética.  

Na altura, vincava-se a cobiça, mas advertia-se que na maior parte dos casos as tangentes entre legalidade e ilegalidade nem sempre eram fáceis de apurar. Afinal, os “paraísos fiscais”, não são ilegais, sendo tolerados, uma espécie de prótese que o próprio sistema alimenta.

Já os Ficheiros Epstein parecem um Estado paralelo. Nada que não viesse a ser exposto há muito tempo, mas apenas no campo da abstração teórica ou quando se pensava numa escala mais diminuta – cidades ou mesmo países. Agora torna-se claro que existem realmente redes de poder globais. Agora tudo o que se pensava ganha expressão corpórea, essa ideia de que vivemos numa espécie de regime feudal global, dominados por redes de super-ricos, políticos ou celebridades.

Por outras palavras: o que estes casos expõem é que existe uma casta de gente rica e poderosa que vive num mundo só seu, com regras próprias, com o sistema judicial e as autoridades a fazerem os possíveis para nada verem, enquanto o jornalismo vai ficando emaranhado nos seus impasses e o público em geral num ecossistema comunicacional complexo, ficando sem saber o que pensar.

No final, preservam-se os poderosos, umas vezes moldando a lei para enquadrar as suas ações, outras lançando doses e doses de nevoeiro para o espaço público, até que todos se percam, ou lhes falte a paciência. Pelo caminho, sim, haverá alguns sacrificados, cuidadosamente selecionados, como acontece sempre nestes casos, garantido a anestesia para que tudo possa continuar exatamente igual.

Tudo sórdido. E o pior é pensar que não temos sido capazes de construir alternativas sólidas para um mundo destes, porque a verdade que mais dói é esta: a maior parte tem como ambição chegar ao mesmo patamar onde tudo, mas tudo, se pode comprar. A alternativa não é moral, é política. De contrário, não sairemos daqui, de escândalo em escândalo, alguns atores mudando, mas nada muda.

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