Bad Bunny? Não conheço.
Há uma dimensão que sempre me interessou na cultura popular de massas que é o de não ser levada muito a sério. Como tal, a maior parte, revela-se muito mais, a partir do que enuncia acerca dela, do que se estiver a falar de assuntos que classifica como sérios. Não se impõe limites. Não se autocensura. É como sonhar, acordado, e falar em voz audível para todos.
Ficamos a saber muito de determinada pessoa, e de como se posiciona na vida, quando se expõe a falar sobre cultura popular. Nos últimos dias, a propósito da atuação de Bad Bunny no intervalo da final do campeonato de futebol americano, tem sido um fartote. Há uma dimensão interessante na maior parte das análises que é o assumir, logo de início, que nunca se tinha ouvido falar na vida de Bad Bunny. Perante qualquer outro tema, dizer algo semelhante, implica prudência. Pudor, até. Aqui não. A ignorância é exibida com galhardia.
Depois de assumido o desconhecimento, ainda mais divertido, surge o julgamento. O artista do qual não se sabe nada, do qual nunca se ouvira falar, é classificado, com um totalitário: “é muito mau”. Porquê? Bem, porque sim. E só depois se parte para a reflexão sociopolítica que, inevitavelmente, exibe o mesmo simplismo, incapacidade de interligação e ausência de olhar crítico sobre um “fenómeno social total” como é o que tem sido versado nos últimos dias.
O efeito, ou sintoma, que aqui evidencio, não é novo. É pão nosso de cada dia. Tornou-se apenas mais visível nesta altura porque os acontecimentos ganharam grande amplitude global. Ainda existe um grau acima disto, que é o da suposta provocação – é ler uma crónica que me foi enviada de Alberto Gonçalves no Observador, mas isso não é nada de novo a que o seu autor já não nos tenha habituado. Recordo-me de há uns quinze anos ter escrito uma coisa chamada “O hip-hop também mata”, mas seja qual for o tema, o simplismo é igual.
Também sintomático, nestes casos, é o posicionamento de uma certa esquerda que exibe algum paternalismo, recorrendo sempre ao mesmo modelo de crítica. Quando surgem fenómenos como o da semana passada vêm logo dizer que aquilo que aconteceu faz parte da lógica interna do próprio sistema neoliberal, logo, não gerará qualquer mudança.
Olhar para o que aconteceu com agrado (seja do ponto de vista artístico, simbólico ou político) não significa ingenuidade ou acreditar que vem aí uma revolução com Bunny a liderá-la. Significa apenas que este tipo de acontecimentos – grandes arenas simbólicas onde identidades, valores e conflitos sociais são disputados, e é por isso que Trump e a sua troupe mostram tanto desagradado – podem produzir mudanças, embora com limites estruturais.
Desafiam-se normas, criam-se novos símbolos de pertença, transforma-se imaginários, introduzem-se narrativas negligenciadas, mexe-se com as consciências públicas, que moldam a política, e isso abre novas frechas e possibilidades de ocupar vazios. Sim, o capitalismo absorve tensões, e transforma-as em produto. Isso não quer dizer que o que aconteceu não gera impacto. Significa que é parcial. Para mudanças estruturais são precisos realinhamentos políticos, organização coletiva, mudar politicas públicas ou transformar instituições.
Não chegam gestos culturais. Dito isto, há um ponto que tem sido negligenciado na maior parte das análises. Vivemos um tempo onde a nossa realidade foi quase toda coaptada pelo neoliberalismo. Nas duas últimas décadas, a direita, com a cumplicidade da esquerda que quando alcançou o poder se esqueceu de ser esquerda, fundiu liberdade e felicidade com mercado. A que associamos bem-estar hoje em dia? Consumir, competir, ganhar. É essa a aspiração da maioria. E é aí que a esquerda deveria operar. Tem reagido perante o expansionismo de uma direita brutamontes, mas não tem sido capaz de afirmar e propor outras experiências de vida e imagens de bem-estar.
Daí que a cultura popular de massas esteja, cada vez mais, no centro de diversas disputas simbólicas. Não serão os Bunny que irão mudar o mundo. Mas, por um lado, nessa disputa, é preferível tê-los ao nosso lado, com todas as limitações e naturais contradições, do que ao lado dos Trump. E por outro, se vamos ficar à espera que aconteça uma revolução à medida do ideal de cada um, bem podemos esperar.